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domingo, 16 de agosto de 2026

OS INADIMPLENTES E A INADIMPLÊNCIA

Minha mãe e meu pai tinham livros de registo de dívidas nas suas mercearias. Era normal haver clientes a comprar fiado, pois muitas vezes recebia-se a parca jorna à semana e ao mês. O cliente tinha também o seu livrinho, quando comprava fiado era escrito nos dois livros o igual valor. As dívidas eram essencialmente de alimentação e produtos básicos às humildes subsistências e nem sempre cobráveis. Então, haviam clientes das mercearias que eram inadimplentes, faziam inadimplência.

Trago este tema à escrita porque li hoje uma palavra que há muitos anos não saía do “baú”: inadimplência. Ela “veio à luz” numa newsletter do portal económico Quartz.
Quartz trouxe a notícia de que “A dívida dos americanos com cartões de crédito disparou para US$ 1,26 trilhão, aproximando-se de um recorde histórico…” intitula o artigo. Na escala portuguesa será um bilião, cento e nove mil milhões, novecentos e trinta e quatro milhões de euros € 1 109 934 000 000. [1 trillion = 1.000 billion = 1.000.000 milhões = 1 bilião em português europeu]. Ter em atenção que a dívida em cartão de crédito é apenas 7% das dívidas nos EUA [Reuters]. E (…) dos “175 milhões de americanos com cartões de crédito, cerca de 60% não pagam o saldo integralmente todos os meses”!!!

Parti à pesquisa. Descobri outra notícia que diz que parte significativa da dívida de saúde vem das famílias de baixos rendimentos: “pelo menos 14 milhões de americanos devem mais de US$ 1.000 em despesas médicas e cerca de 3 milhões devem mais de US$ 10.000” [Kff.org]. Pior. A Reuters informa das "cobranças inflacionadas ou duplicadas, honorários por serviços que o paciente nunca recebeu ou cobranças já pagas (…), com americanos perseguidos injustamente por empresas de cobrança de dívidas por contas médicas infundadas ou inválidas."
- Em Portugal o Serviço Nacional de Saúde português é tendencialmente gratuito!

Cerca de 9% da dívida castiga os mais jovens, “os empréstimos estudantis totalizam US$ 1,65 biliões”. É o direito ao conhecimento mercantilizado, é o futuro melhor dependente de um empréstimo, é a inversão do conceito de democracia. Logo em jovens, a dívida torna-se normalidade! Aprender é um direito da democracia, não é um negócio bancário!
- Em Portugal o Ensino Público obrigatório é gratuito e o superior é tendencialmente gratuito! É uma das conquistas de abril… Pois…

O império da dívida é a dependência eterna!
Quadro de dados do BCE, comparação EUA - Portugal:


Os dados são profundamente esclarecedores. Tenhamos claro: os serviços públicos como a saúde e a educação, com os quais o Estado apoia as pessoas, são devolução em salário indireto das contribuições que fizemos nas nossas remunerações ou atividades. Os serviços públicos não podem gerar mais dívida!

1. Os dados e factos dos EUA mostram que mercantilização dos serviços públicos dificulta o acesso da população, aumenta a pobreza, a dívida e tende a criar dependência que dura para toda a vida. O quadro anexo mostra uma enorme diferença entre os EUA e Portugal na dívida per capita. Relevante, o país das oportunidades, o país dito como referência da democracia, a maior potência económica do mundo é o país da dívida!

2. O salário digno tem vindo a ser substituído por salário + dívida. O salário não acompanha as novas necessidades e a evolução humana; o salário digno é substituído por dívida - isso subordina as pessoas.
Na usurpação dos rendimentos, incluindo aos próprios Estados, este regime económico / político – o capitalismo realmente existente – não vive sem dívida. A dívida “eterna” garante juros, predomínio da financeirização da economia, mas também capacidade de investimento estatal e empresarial ou o consumo dos novos produtos que substituem os que ficam “caducos… Objetivamente, a dívida é a dependência e a subjugação aos ratings dos mercados da dívida controlados por uma micro minoria, é até, a subjugação da independência dos povos!

3. A habitação e a inadimplência estarão no centro de uma nova crise? Quiçá, caminhamos para uma nova crise, recordo que a habitação foi o epicentro da crise de 2008. O colapso da bolha imobiliária nos EUA desencadeou incumprimentos, falências bancárias e uma crise financeira global sem precedentes desde 1929. Em Portugal temos juros a subir, créditos bancários a subir, preços continuamente a subir “exponencialmente” [os preços das casas em Portugal subiram 16,5% só nos primeiros três meses de 2026]…
Em sentido inverso, a pressão é para salários baixos / tentativas governamentais de alterar as leis de trabalho para baixar ainda mais os salários, precariedade em crescimento e agora o anúncio de aumento 58% das insolvências, face a julho homólogo, em Portugal…
Portugal tem cerca de 88 mil casas à venda [site Doutor Finanças/observatorio-imobiliario-maio-2026] e o número real de casas vazias em Portugal é superior a 700 mil [portal idealista]. Como Portugal, e imensos países, comprovam é que só a intervenção decisiva do Estado na criação da habitação pública e na limitação da transferência de habitação permanente para Airbnbs é que conseguirá regular.

4. Concluo: i) este modelo económico substitui salários dignos por dívida, ii) direitos essenciais e públicos por mercantilização liberal da vida humana e, iii) um mercado que limita a democracia a uma formalidade em perda de conteúdo!

Há muito a pensar… 
Vítor Franco
Também publicado no jornal Mais Ribatejo

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Os incêndios e as tragédias que vão continuar a crescer!

Uma fotografia cedida pelo Serviço Departamental de Bombeiros e Salvamento 33 (SDIS 33), o serviço oficial de bombeiros e salvamento da região de Gironde, mostra uma aeronave da Segurança Civil francesa a sobrevoar uma zona afetada por um incêndio no Camp de Souge, em Martignas-sur-Jalle, perto de Bordéus, no sudoeste de França, a 28 de julho de 2026. A França prepara-se para a próxima grande onda de calor do ano, enquanto os bombeiros continuam a combater grandes incêndios florestais perto de Bordéus. EPA/SDIS33/MATTHIEU PENZ

O título pode ser especulativo, pode, vamos a factos.

1. A França sofre os maiores e mais graves incêndios de sempre. Os números são dramáticos: mais de “42 000 hectares ardidos, só no principal incêndio, centenas de casas destruídas, 250 000 pessoas evacuadas no conjunto das áreas afetadas”. O fogo criou grandes colunas de fumo e calor “capazes de produzir ventos, relâmpagos e novos focos — o chamado fenómeno de tempestade de fogo ou pyrocumulonimbus”. (apnews. com)

2. A Espanha sofre também os maiores incêndios. Espanha vive “uma das piores épocas de incêndios em décadas”, com muitos fogos simultâneos. Tem mais de “75.000 pessoas evacuadas, 30.000 confinadas, uma área ardida entre 130.000 e 168.000 hectares só desde janeiro, mais de 77.000 hectares ardidos e pelo menos 14 vítimas só este mês”. (france24.com)

3. Itália, Grécia e Portugal, parecem estar um pouco menos castigados até agora. No entanto, em “2024 e 2025, Portugal, Grécia e Itália sofreram épocas de incêndios extremamente severas, com áreas ardidas muito acima da média histórica, impulsionadas por ondas de calor mais longas, secas persistentes e temporadas de fogo cada vez mais extensas”. (intellinews.com/europe)

4. A mortalidade teve recordes, neste mês de junho, devido às canículas que crescem na duração e na intensidade. “Pelo menos 12.000 mortes em excesso durante a canícula de junho de 2026 em nove países europeus. A maioria das vítimas (mais de 9.000) tinha 65 anos ou mais”. (Euronews.com)

5. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, “os glaciares perderam, em média, cerca de 273 mil milhões de toneladas de gelo por ano entre 2000 e 2023. Entre 2022 e 2024 ocorreu a maior perda de massa glaciar acumulada em três anos desde o início dos registos”. (wmo.int/news/media-centre). Todas as organizações científicas confirmam a subida da temperatura do planeta. Se dúvidas ainda houvessem, aqui fica este gráfico da NASA. Ela “afirma que existem provas inequívocas de que a Terra está a aquecer a um ritmo excecional e que a atividade humana é a causa principal”. (science.nasa.gov/earth/explore/earth-indicators/). Se os glaciares derretem mais, o mar sobe mais. Se a temperatura do mar sobe, piores vão ser os fenómenos como o El Niño e outros.


6. Doenças anteriormente associadas sobretudo a climas tropicais ou subtropicais estão a crescer na Europa, algumas até em Portugal. Os dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde são claros: Dengue, Chikungunya, Febre do Nilo Ocidental, Leishmaniose, Zica (…) são trazidos por insetos que antes não conseguiam viver nestes climas, nomeadamente mosquitos. “Portugal, Espanha, Itália, França e Grécia são os países mais vulneráveis”. (who.int/europe)

7. O problema acresce, a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e a FAO são claras nos seus relatórios: “as terras inférteis no planeta estão a aumentar, e a tendência está a acelerar devido ao aquecimento global, à perda de água, à erosão, à desertificação e ao uso agrícola intensivo”. “40% das terras do planeta estão degradadas ou em processo de desertificação, 1/3 das terras agrícolas já perdeu fertilidade significativa, 24 bilhões de toneladas de solo fértil são perdidas todos os anos, 75% da superfície terrestre já sofreu algum nível de degradação”. Cerca de 120.000 hectares de terra ficam inférteis todos os anos. (unccd.int/resources/global). “Portugal tem 58% do território vulnerável e o Alentejo é a área mais crítica, 20% já em estado de degradação severa, 9% da costa em erosão crítica afetando também solos agrícolas”. Os dados públicos da Pordata, ICNF e da [dormente] APA são claros. (pordata.pt, icnf.pt, apambiente.pt)

Isto não é a história do Pedro e do lobo. São dados e factos!

Dados e factos não são crenças de que sempre houve verões quentes, doenças tropicais, inundações… Não, os dados e factos demonstram as consequências de se manterem os predomínios dos combustíveis fósseis, sistemas produtivos altamente poluentes, transportes públicos deficientes e caros…

O caso é mais sério ainda!

Vivencia-se uma onda de negacionismo dos factos e dados científicos, um extremismo que ganha força eleitoral em todo o mundo, na senda de Donald Trump.  Neste tempo de incerteza, guerra, conflito, ódio, esperava-se uma Europa pacificadora, sensata, lucida, referência de inovação tecnológica, proteção ambiental, qualidade de vida e combate sério e efetivo às alterações climáticas. Nada disso.

O Finantial Times trouxe-me a má novidade. A UE dará à indústria mais tempo para poluir e mais fundos aos grandes poluidores [tradução minha]. (ft.com/)

A pesquisa levou-me a dois artigos no semanário digital vientosur.info/. Tentando resumir: As licenças de emissões de carbono, “atualmente avaliadas entre 35 e 40 bilhões de euros anualmente, expirariam em 2034. Elas serão prorrogadas até 2038 para empresas que se comprometam a investir na Europa. Nesse caso, elas poderão compensar até 80% de suas emissões sem gastar um único euro”. A Comissão pretende que pelo menos metade dos 24 mil milhões de euros que as empresas pagam aos Estados pelas licenças, seja agora “atribuído às empresas para financiar a descarbonização (em comparação com os atuais 5%). Por outras palavras, o dinheiro que atualmente beneficia a comunidade será desviado para beneficiar os poluidores que, conscientemente, prejudicam o clima, em detrimento da sociedade”.

O Plano Verde da Europa está a “ir pelo cano”. L'accord de Paris est en train de brûler!

E quando a Europa devia investir numa forte força de proteção civil europeia, investe em armamento!

Vítor Franco

Também publicado no jornal Mais Ribatejo

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Comboios com problemas bons


A criação do passe ferroviário verde foi uma ótima medida de fomento do serviço público ferroviário.

Este passe ferroviário fez encher os comboios, diminuiu a necessidade do automóvel – espero que tenha contribuído para a diminuição de acidentes -, diminuiu a poluição rodoviária e atraiu para os comboios pessoas que normalmente não o usam nas suas viagens mais ocasionais.

A boa medida “criou” problemas bons. Ficou mais evidente a falta de comboios para as necessidades já antes verificadas, locomotivas e carruagens, a falta de mais comboios em horários mais alargados e uma cobertura mais alargada e coerente do país.

A limitação da compra só nas 24 horas antes do horário do comboio criou uma corrida em que os bilhetes desaparecem num ápice, ao que pessoas algumas pessoas contornaram comprando bilhete para uma estação anterior à sua. A primeira solução criou a instabilidade de se conseguir ou não bilhete – os lugares esgotados tornaram-se uma normalidade -, a segunda agravou ainda mais o esgotamento porque passou a haver lugares vazios de pessoas que só vão entrar em estações à frente.

Tais factos estão identificados, esperam-se medidas corretivas.

O jornal Público de hoje traz uma boa matéria sobre esta situação. A dada altura, escreve o jornalista Carlos Cipriano: “A CP continua com cerca de 20% da sua frota de carruagens do Intercidades encostada nas oficinas à espera de manutenção e de reparação. Faltam peças, que a empresa não pode comprar sem autorização da tutela financeira, e faltam operários, que não consegue recrutar ou manter, porque não está autorizada a subir os salários”. É aqui que entra o garrote do orçamento.

Uma boa medida é estrangulada se não se libertarem os meios financeiros para a concretizar e se não se romper com o dogma de que os salários em Portugal têm que ser dos mais baixos da Europa.

Conhecemos as consequências do desinvestimento nos variados serviços públicos, na saúde, na educação, na limpeza urbana… Conhecemos as consequências da demissão do Estado da construção de habitação pública a preços controlados porque se submete ao dogma de que o mercado resolve. Está à vista!

Um pouco em sentido inverso, tem ocorrido um conjunto de melhorias na política de transportes públicos em particular nos passes, por exemplo a gratuitidade para jovens, maior apoio social e novos passes nacionais ferroviários. O passe jovem abrange todos os estudantes até 23 anos, Passe Social + já existia foi alargado abrangendo agora 2,5 vezes mais pessoas, etc, [mais dados aqui].

Estão criados problemas bons, criados por melhorias; agora é preciso que o governo seja consequente com as boas medidas e deixe de lado os seus dogmas de mercado. A ver vamos!

Vítor Franco
(Também publicado no jornal online Mais Ribatejo)
Ouça aqui a crónica sonora:

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O rapaz do hospital


O rapaz tinha cursado eletricidade, acabado o antigo curso complementar dedicou-se a calejar as mãos que os escudos faziam falta e o desejo de autonomia ardia no peito.

Depois de um “estágio” de servente de pedreiro ingressou como eletricista na construção do Hospital de Santarém. Quando ele fala desse tempo fá-lo com gosto. Lembra-se do grande refeitório, da grande fogueira onde se assava carne, da relação muito solidária com os colegas, de quando organizou um protesto porque a direção de obra não deixou entrar bicicletas e motorizadas, dos plenários e das greves, de uma bonita filha do encarregado que trabalhava na secretaria, de quando separou uma briga de colegas… Coisas de rapazes com “sangue na guelra” em tempos de entusiasmo popular.

O rapaz seguiu outros trabalhos, mas as obras do hospital continuaram. O Hospital Distrital de Santarém foi inaugurado em 15 de novembro de 1985. Foi um salto positivo e enorme na construção do Serviço Nacional de Saúde e dos cuidados à população.

Como em alguns filmes, a narrativa dá um salto. O Hospital já fez 40 anos! É a partir daqui que a narrativa se transfigura olhando para o estado a que este chegou

Agora o hospital está muito mais moderno e até tem página de internet, com isso ganhamos transparência. É nela que podemos ver, por exemplo, os desmesurados tempos de espera para as consultas de duas especialidades, cujo atendimento prima pela fragilidade.
Ginecologia         nº utentes  dias de espera   Obstetrícia          nº utentes dias de espera
Muito prioritário       19             31                Muito prioritário      50           18
Prioritário               132            57                 Prioritário             106            37
Normal                   214          533                 Normal                  42            44

Tais factos deveriam incentivar a comunidade a indignar-se. Nem com cerca de 50 crianças a nascerem em ambulâncias ou episódios sucessivos de aflição de mulheres grávidas?!

Em dezembro de 2022 o governo criou o chamado “Programa nascer em segurança no SNS”. Este programa foi anunciado depois de meses e meses de problemas com encerramentos de urgências. Os problemas continuaram, deixou-se de falar no programa – salvo quando vemos reportagens nas TVs, por vezes com desfecho dramático.

Mudou o governo, a situação parece estar ainda pior. Nos passados dias de 31 de dezembro e 1 de janeiro os hospitais de Santarém, Abrantes e Vila Franca de Xira tiveram as urgências de obstetrícia, ginecologia e pediatria encerrados. Toda esta faixa central do país ficou sem assistência. É deveras tristemente espantoso!

Ainda no que ao nosso hospital diz respeito, já em 3 de março de 2023 as notícias indicavam que só tínhamos 8 em 20 anestesistas necessários, 19 em 40 médicos de medicina interna necessários, 5 em 14 ortopedistas necessários…

Por falar em notícias, no dia 5 de junho de 2025 a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, ASAE, fechou a cozinha do hospital por irregularidades que se arrastavam desde 2020, tendo só reaberto depois de finalizadas as correções das irregularidades.

Toda esta degradação do Serviço Nacional de Saúde que atravessou vários governos foi propositada [acusação forte?] – ou parece. Esta degradação do SNS obrigou milhões de portugueses a recorrer a seguros privados passando a pagar duas vezes mais [no seu desconto salarial + apólice de seguro] pelos cuidados de saúde que a Constituição da República diz deverem ser tendencialmente gratuitos.

Afinal, tudo isto, veio abrir espaço de negócio para Santarém já ter dois hospitais privados, cujas empresas lucrarão com as nossas necessidades de cuidados de saúde. O novo hospital privado atrairá ainda mais pessoal de saúde para os seus quadros pagando mais e dando melhores condições. O SNS ficará ainda mais fragilizado!

Afinal, com tudo isto, parece que normalizámos o que não é normal, parece que nos anestesiámos… !

Afinal, tudo isto, nem era para falar do rapaz do hospital que mandava fulminantes para a fogueira dos assados ou da tentativa de boicote dos trabalhadores à festa do “pau de fileira”…

Vítor Franco

(Também publicado no jornal online Mais Ribatejo)
Ouça a crónica sonora aqui:

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Um mundo infestado de demónios

Ilustração digital. Mais Ribatejo/IA

Este é o título de um dos magníficos livros de Carl Sagan. Na contracapa o texto começa com a pergunta: “Estaremos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição?”

Os livros, por vezes, “caiem-me” nas mãos. O caso é que “Um mundo infestado de demónios”(1) chamou-me lá do meio da estante, lá onde Sagan “toma café” com Hubert Reeves, Stephen Hawking e outros, que fizeram da incitação ao conhecimento um contributo determinante para um futuro positivo da humanidade.

Carl Sagan veio “atrapalhar” as minhas leituras de “O enigma de Israel”, de Henrique Cymerman e “A vegetariana” de Han Kang. O livro foi publicado pela primeira vez em 1995 e em Portugal em setembro de 1997 numa edição Gradiva. Mas é fabuloso, basta olhá-lo que a nossa mente vai perguntar: o que trará sobre os tempos que correm?

Terei lido este livro há uns 23 ou 24 anos [nem sei], preciso de voltar a embrenhar-me nele, acompanhado da minha caneta de cores. Preciso de voltar a sublinhar, a comentar, aos meus pontos de exclamação e interrogação, a escrever perguntas interpelando o livro como se fosse um diálogo vivo. Recorro às minhas notas e sublinhados de então, partilho algumas convosco.

Nós seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam.” [pág.422]

Esta frase faz-vos pensar em algo? Estais de acordo que temos medo dos desconhecidos ou das pessoas diferentes? Encontrais aqui algo em que o racismo se possa apoiar hoje para manipular as mentes humanas?

E por falar em manipulação, dou, de novo, a palavra a Sagan…

Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer – mesmo coisas que sabemos erradas”. [pág. 423]

Sagan, e sua esposa, Ann Druyan, que colaborou na escrita do livro, relacionam esta problemática com a democracia e as suas ferramentas de defesa. Aliás, um problema que atravessa a Europa e Portugal em particular. Como é que a democracia se defende de quem a usa para a destruir? Como é que a democracia suscita a participação cívica para que não seja repressiva e até onde vai essa tolerância? Questões bem evidentes nos recentes episódios de ódio que são públicos.

O livro coloca um exemplo:

“Randall Terry, fundador [chefe] da Operação Resgaste, uma organização contra as clínicas de aborto disse numa reunião em 1993: Que uma onda de intolerância se abata sobre vós… Sim, odiar é bom… O nosso objetivo é uma nação cristã… Fomos chamados por Deus para conquistar este país… Não queremos pluralismo”.

É interessante verificar como estas afirmações, com mais de 30 anos, bem longe deste pequeno país “à beira-mar plantado”, são repetidas por um político que afirma ter uma missão perante Deus, uma ação cristã… Estas narrativas são comuns em vários países do mundo nos personagens que corporizam os discursos de ódio, liberalização e livre posse das armas, confronto contra os direitos das mulheres, dos imigrantes, etc.

Sagan e Ann Druyan trazem ao livro uma interessante abordagem de Thomas Jefferson, que foi o 3.º presidente dos Estados Unidos (1801–1809) e principal autor da Declaração de Independência. Apesar de ser uma figura polémica [por exemplo: defendia as liberdades, mas terá tido centenas de escravos], Thomas Jefferson é chamado ao diálogo com algumas das suas intervenções. Deixo-vos com a sua afirmação de que era “essencial que as pessoas se educassem a si mesmas e se envolvessem no processo político. Sem isso, dizia ele, os lobos vencerão”. Jefferson usava por vezes a classificação de lobos e cordeiros para diferenciar poderosos e fracos, dominantes e dominados.

Neste mundo infestado de demónios, queremos que os lobos vençam?

Vítor Franco

P.S. Sagan dedicou este livro ao seu neto Tonio, “Desejo-te um mundo sem demónios e pleno de luz”.“Um mundo infestado de demónios”, Carl Sagan, Gradiva, setembro de 1997.

Artigo também publicado no Jornal Mais Ribatejo aqui.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Tu pertences a ti / Não és de ninguém…

Convento das Capuchas em Santarém
“Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém
De ninguém”…

Esta quadra da canção “Nasce Selvagem”, do saudoso grupo Resistência, pode trazer-nos nostálgicas recordações. Pode, trago-a a esta partilha para acompanhar a lembrança de tantas crianças que nascem sem ninguém.
(Ouça aqui o podcast:)

É um lugar comum que nestas quadras festivas se recorde, ou presentei, quem não nasceu em berço de carinho ou posses. É…! Quiçá, assim se descarregam consciências pesadas de um ano desprovido de sensibilidade e humanidade.

Talvez também eu tenha caído em tal falta, quando só agora tenha decidido escrever sobre a roda do Convento das Capuchas.

Este Convento, ali na entrada do Bairro do Pereiro, lugar do meu crescimento, lugar de passagens apressadas sem perguntar: o que estará para além daquela porta? Não fazer perguntas é das coisas mais nefastas a que podemos entregar a mente. Foi preciso passarem décadas para que a indagação tenha exigido tocar à campainha. Quis saber da história da roda e do Convento.

Ali, pelos tempos idos do século XVIII, se construiu uma roda para entrega dos nascidos sem sorte de amor ou enchimento de colher. Nascidos de amores escondidos, de pobres sem eira nem beira, de trabalhadores quase escravos, das e dos que já então dividiam uma sardinha por três para uma fatia de pão de milho como os e as nossas avós. Ali se fazia a entrega anónima de quem nascia para viver “selvagem”.

Luiza Andaluz criou ali, em 1925, um novo lugar de acolhimento solidário, a que deu o nome de “Asilo Creche de Nossa Senhora dos Inocentes”. E, aos inocentes – pois que de nada são culpados – Luiza poderá ter dito “E para ti serás alguém / Nesta viagem”.

Aquele bairro, o do Pereiro, que em tempos terá sido lugar de acampamento romano, tem um lugar de paz e construção. No lugar onde cresci, ali ao pé da antiga “escola das meninas”, ali perto de onde “subtraía” nêsperas deliciosas do quintal de um vizinho, está um lugar de acolhimento mesmo que ele passe despercebido à comunidade.

Hoje continuam a nascer inocentes, crianças “sem ninguém”, vítimas de uma pobreza cultural e económica que persiste neste modelo de sociedade realmente existente. Continuam a nascer “selvagens” que não são de ninguém, a não ser da “má sorte”, apesar da boa nova de abril. Abril sussurra-nos por socorro, que o passado está a destruir o futuro, que o ódio se fez presente e expulsou a tolerância, o respeito e a solidariedade. Abril grita – mas poucos o ouvem -, na alienação que tolhe pensamentos e turva a visão! Nesta alienação, parida do ódio do “estado novo”, há palavras e actos exauridos: diálogo, sinceridade, luta, esperança…

Ali, no Bairro do Pereiro, há lugares com esperança para todos – para que todos sejamos alguém, nesta viagem!

Vítor Franco
P.S. O convento é propriedade da Fundação Luiza Andaluz.
Artigo também publico no jornal Mais Ribatejo aqui

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Do atentado terrorista na Austrália para o mundo, ódio alimenta ódio

Um salva-vidas coloca flores num memorial improvisado na praia de Bondi, em Sydney, Austrália, em 16 de dezembro de 2025. A Austrália está de luto após um ataque às celebrações do festival de Hanukkah da comunidade judaica, em 14 de dezembro, que deixou pelo menos 16 mortos, incluindo um atirador. EPA/MICK TSIKAS AUSTRÁLIA E NOVA ZELÂNDIA

Começo por enviar os meus pêsames às comunidades judaicas e repudiar este horroroso ataque terrorista antissemita.

Este ano estive numa abertura do Hanukkah em Lisboa, tal como estive no Rosh Hashaná que celebra o ano novo judaico – com todo o gosto. Também já estive na sinagoga em cerimónia para a qual fui convidado.
Também, com todo o gosto, fui padrinho de casamento [o nikah] de um jovem muçulmano, ofereci o fato ao noivo, participei com alegria na festa [a walima] e na comidinha boa que juntou comunidade e amigos. Foi com pesar que estive no funeral do pai do meu afilhado, assisti à cerimónia [Salat al-Janazah] na mesquita de Lisboa e acompanhei-o no enterro.
 
Estes parágrafos iniciais identificam uma forma de estar ecuménica que valorizo positivamente e também está sendo atacada. O fanatismo religioso está a ser usado e está a caminhar a par do crescimento dos ódios e dos extremismos. Em pleno século XXI há dirigentes e governantes políticos que afirmam falar com Deus, ser possuidores de tarefas por Ele mandatadas, negacionistas da evolução das espécies e da natureza humana e que pretendem impedir a ciência proibindo ou condicionando livros e currículos escolares, afirmando que a terra é plana. Tais fanatismos, não vem só dos países islâmicos, atingem até os EUA, nomeadamente a proibição [dita descontinuação] em alguns Estados de conteúdos sobre sexualidade, identidade de género, racismo, história afro-americana… (1)
 
O ódio e o racismo são hoje armas de manipulação das mentalidades de centenas de milhões de habitantes deste planeta finito, onde se negam alterações climáticas e até vacinas, mas que ganham eleições. Poder-se-á dizer que a manipulação das massas via redes sociais e mentiras faz lembrar a idade média? Talvez… Não sei responder, mas sem redes sociais, fez-se a matança de judeus de Lisboa, a “matança da Páscoa de 1506, em que uma multidão perseguiu e matou milhares de judeus acusados de serem a causa de uma seca, fome e peste que assolavam o país”.
 
Em nome de uma religião, odiam-se “infiéis”, criam-se fantasmas como a teoria da substituição e da colonização da Europa pelos imigrantes islâmicos – esquecendo os crimes da escravatura, do colonialismo ou a opressão dos povos africanos. Pretende-se proibir igrejas “alheias” quando, em nome da fé, se fizeram matanças em todo o planeta e se implantou uma igreja colonial. E nem é preciso recorrer às Américas ou a África – veja-se o que fizeram as tropas católicas romanas na extinção do povo cátaro no sul de França.
O facto de eu não acreditar na existência de um Deus [sou ateu] não significa que não respeite quem acredita e [acho eu] credita-me de um olhar mais aberto – também responsável - para olhar o crescimento do ódio e do racismo no mundo.

É preciso ver a vida como ela é!

A vida humana é diversa, multicolor e multicultural. Mas todas as pessoas são feitas exatamente da mesma carne, dos mesmos ossos, do mesmo sangue. O ser humano, enquanto ser, só tem garantia de sobrevivência no respeito da diversidade pois é esta que faz a sua Unidade enquanto espécie!

- Que diriam vocês se a cerimónia de Hanukkah ou a sinagoga, onde estive, fosse atacada por fanáticos de ódio e religião e me matassem? 
- Que diriam vocês se a cerimónia fúnebre do pai do meu afilhado, na mesquita, fosse atacada por fanáticos de ódio e religião e me matassem?
 
Depois do 25 de abril o “internacionalismo proletário” era muitas vezes invocado, e bem, para negar as guerras injustas, a opressão de povos pela elite dominante de outros povos, a matança entre pessoas que nada decidem e só obedecem às chefias militares e políticas. São precisos diálogos ecuménicos e para a paz entre os povos, as esquerdas têm uma especial responsabilidade nisso.

TODOS OS POVOS TÊM DIREITO À SUA IDENTIDADE, AUTODETERMINAÇÃO E DEMOCRACIA.
 
Talvez hoje se possa invocar e globalizar o internacionalismo solidário e democrático. A tarefa parece ciclópica, mas é um problema candente que exige solução!

(Artigo e podcast em Mais Ribatejo)
Vítor Franco
(1) Fontes: UOL, Veja, GnewsUSA, Aventuras na História, Revista Fórum

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Dos factos à greve geral

Foto de António Cotrim / Lusa.

Entre 2000 e 2025, as empresas do PSI 20 acumularam aproximadamente 100 mil milhões de euros em lucros líquidos, com forte participação das empresas de energia, banca, retalho e papel. Destes lucros, distribuíram 60 mil milhões aos acionistas, taxa média de distribuição (payout ratio) de 60% ao longo do período, segundo o Jornal Económico. Tudo isto apesar de covid, guerras, instabilidade política e financeira na Europa e no mundo (…) a prioridade foi remunerar acionistas!

A EDP destacou-se. Hoje a digitalização das redes e da sua operação, os telecomandos e a inovação tecnológica, as inovadoras formas de produção de energia diminuíram exponencialmente a mão de obra. A contratação de empreiteiros para tarefas permanentes, substituindo trabalhadores do quadro por precários subcontratados, vai tornando o trabalhador com direitos estáveis numa “espécie em regressão”.

Coincidência, ou talvez não, i) o atual secretário de Estado era o anterior responsável das relações laborais da EDP, ii) os argumentos deste governo na pretensão deste pacote laboral são idênticos aos usados pela EDP para tentar agora a denúncia do Acordo Coletivo de Trabalho.

Como salientou a economista Helena Garrido, o país tem um enorme “peso dos sectores de valor acrescentado muito baixo”. Este facto é estrutural há muitos anos no país, no desiderato da competitividade. Portugal especializou-se a servir à mesa, a fazer camas, a produzir frutas de elevado consumo de água e outras produções de baixo valor acrescentado.

A recuperação salarial de milhões de pessoas castigadas pela troika, pela salvação dos bancos e pela pobreza “endémica”, poderá ter influenciado os custos unitários do trabalho em processos produtivos atrasados e os resultados de pequenas empresas em setores como o calçado, têxteis, e outras empresas de setores intensivos em mão de obra… Muitos empresários têm mostrado resistência à inovação tecnológica, à inovação e à criatividade, mantendo processos de trabalho cuja produtividade depende mais do número de braços e de mais horas de trabalho do que da modernização tecnológica e inovação.

Compreende-se [digo eu] que a “produtividade portuguesa seja 80% da europeia, por trabalhador”; também quando “34% dos trabalhadores têm formação superior, para apenas 28% dos empregadores” [Helena Garrido].

O futuro faz-se com futuro!

A solução para diminuir os custos do trabalho por unidade produzida (CTUP) não passa por obrigar as pessoas a trabalhar sem receber horas extraordinárias, nem por diminuir ainda mais aquele que já é dos salários mais baixos da Europa, nem por destruir a contratação coletiva que constrói democraticamente uma relação comunitária mais justa!

A solução para uma boa economia não passa por retroceder nas relações sociais e empobrecer as pessoas, passa pela modernização, inovação, investigação e fomento dos setores económicos de mais valor acrescentado com empregos de futuro. Uma economia que mantenha os “30 mil jovens qualificados (com ensino superior concluído) que emigram por ano em busca de melhores condições de vida e salários”. Essa fuga “representa uma perda estimada de 2 mil milhões de euros por ano para a economia portuguesa” segundo a Federação Académica do Porto.

Uma vida digna não passa por tornar ainda mais instável e precária a vida das e dos trabalhadores, dificultar ainda mais a maternidade e a paternidade - quando caminhamos para um país de velhos -, e, antidemocraticamente, limitar direitos constitucionais como a liberdade sindical e o direito à greve!

Aderir e apoiar a greve geral de 11 de dezembro é um ato pela justiça e respeito das e dos trabalhadores. Por uma vida digna!

Vítor Franco

P.S. Poderá ler informação detalhada e simples no link do Sindicato das Indústrias de Energia e Águas de Portugal (SIEAP) clicando aqui.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Dia Internacional da Paz, 21 de setembro.

“92 países estão envolvidos em conflitos fora das suas fronteiras, o maior número desde a criação do IGP. E, segundo a ONU, há mais de dois mil milhões de pessoas cujas vidas são, hoje, afetadas por conflitos e guerras, havendo quase 120 milhões de deslocados devido a guerras, perseguições e outras formas de violência.” Jornal Público 19/09/2024.

“Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar/ Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”. Esta é a primeira estrofe do poema “Cantata de paz”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, musicado por Francisco Fanhais. É uma canção poderosa, de uma mensagem e de uma voz que nos devia revolver as entranhas do pensamento e indagar sobre o que a humanidade anda a fazer.

Vale a pena pensar, ao menos este dia que foi declarado pela ONU em 30 de novembro de 1981. O dia que se dedica à paz mundial acontece quando o mundo está envolvido na maior violência pós-segunda guerra mundial.

A jornalista do Público, Carla Ribeiro, no seu interessante artigo, entrevista o escritor José Luís Peixoto que – muito acertadamente – diz que o “conflito torna-se tão normal nas nossas vidas que dá a sensação de que estamos todos um bocadinho adormecidos”. “É o resultado, diz, de uma certa desumanização, também alimentada pela banalização dos temas e da forma como os tratamos”. Em sequência, Carla Ribeiro convoca uma frase do raper Mário Cotrim, ProfJam, que “vê nessa desumanização o reflexo da paz orwelliana, onde a guerra é a paz e que a paz se faz pela guerra”.

A violência assume várias formas, como as de comércio, de ideologia e alienação, de domínio político e militar. A violência entra-nos todos os dias pelos noticiários e fez de vários canais TV, como a CMTV e vários canais crime, lugares de conquistas de audiências. Milhões de pessoas dedicam horas de cada um dos seus dias a ver e ouvir violência, e gostam. A TV e os jogos na net são responsáveis, penso eu, pela exacerbada proliferação de atos violentos inacreditáveis feitos por crianças em escolas. Agora, até em Portugal.

É o efeito da popularização da violência sobre as crianças que me preocupa mais. As crianças são as que sofrem as mais duras consequências da guerra e da violência. Há meninos, que por vezes são obrigados a ser homens armados, meninos-soldados, meninos sem meninice, até meninos forçados a ter ódio!

As crianças estão na “linha da frente” dos refugiados, na fome, na privação da escola, na saúde ou no afeto. Há um mês li um artigo [veja aqui] sobre o menino Khalil num sítio da BBC. O menino sírio, que cruzou cinco países da Europa a pé, ”tinha apenas seis anos quando deixou a Síria, palco de confrontos diários, no auge de uma guerra civil”. Como o menino Khalil, o menino Stefan que fugiu da morte do nazismo e que no Museu Aristides de Sousa Mendes “fala” [agora já um velhinho] com outro menino refugiado de uma das guerras contemporâneas. Antes, como na fuga das 10 000 crianças refugiadas judias de comboio no kindertransport, agora como as crianças que fogem de barco atravessando o Mediterrâneo e quantas as que morrem afogadas.

Talvez o dia 21 motive algo de positivo aos vários governantes de vários países da Europa que estão a expulsar os refugiados que cá chegam, fugidos da fome e da guerra, devolvendo-os ao mar, à morte, ou às ditaduras a quem os países europeus pagaram para lá expulsar os seres humanos refugiados. 
Vítor Franco

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

11 de setembro, de más memórias! (Texto e podcast)

New York City Ground Zero. Foto Depositphotos

Quando o calendário marca o dia a nossa memória recua no baú do tempo e traz-nos as brutais e impactantes imagens dos ataques terroristas nos EUA em 2001. As terríveis imagens dos aviões a embater contra as torres gémeas provocaram uma comoção global, 3 mil mortos e centenas de feridos.

Este ataque talvez marque uma viragem nos ataques terroristas: eles passaram a ser planeados com muita antecedência, ação de surpresa, envolvendo meios humanos especializados, equipamentos e conhecimentos avançados, ataque simbólicos / de mensagem forte e mediatização global do horror provocado.

O mundo interrogou-se como foi possível um ataque desta dimensão, astúcia e “eficácia”, ao centro do centro do império global. Uma “nova” narrativa surgiu desse ataque: a luta entre os bons e os maus, a luta entre civilizações e entre religiões. O racismo e o militarismo substituiram a razão.

O ataque terrorista às torres gémeas foi feito precisamente pelas correntes fundamentalistas e religiosas que se agruparam na Al-Qaeda e que os próprios EUA tinham apoiado financeiramente para treino e armas, para estas se oporem ao exército russo que ocupava o Afeganistão.

Em dezembro de 2001 as Nações Unidas aprovam a criação da Força Internacional de Apoio à Segurança, liderada pelos EUA e pela NATO. O império, ferido, tinha de se “vingar” – o seu poder não podia ser posto em causa. O presidente George W. Bush decide iniciar o seu ataque, denominado "Liberdade Duradoura"” em 7 de outubro de 2001. Coincidência, ou talvez não, o ataque terrorista do Hamas também foi a um 7 de outubro.

A invasão do Iraque

A teoria de combate militar ao “eixo do mal” / “guerra ao terror” leva os EUA a atacarem o Iraque em 2003. Portugal fica tristemente marcado pela cimeira das Lajes, 16 de março, com Durão Barroso, George Bush, Tony Blair e José Maria Aznar, que sinalizou o início da invasão sob o argumento – provado como falso – que o ditador Saddam Hussein estava a produzir armas químicas de destruição em massa. A guerra que chegou a ter mais de 150 mil soldados da força internacional teve como consequência mais de 600 mil iraquianos mortos, milhares de refugiados, um país destruído, o crescimento do ódio fundamentalista e extremista de vários grupos – incluindo da própria Al-Qaeda. Todos os objetivos falharam. O sofrimento do povo aumentou!

Afeganistão, mais uma prova do fracasso da guerra!

Teoricamente a “comunidade internacional” esforçou-se por apoiar os governos pró-ocidentais de Cabul. A Conferência de Doadores de Tóquio para a Reconstrução do Afeganistão, janeiro de 2002, concede 4,5 bilhões de dólares a um fundo gerido pelo Banco Mundial. Eram objetivos: a modernização técnica, infraestrutural e de serviços públicos. Desconheço o resultado dessa avultada aplicação de dinheiro. O que é certo é que a oposição extremista voltou a crescer e estabelece-se uma ofensiva talibã, em 2021, em que o poder cai como um baralho de cartas. Os soldados governamentais passavam-se para os adversários e a sua entrada em Cabul foi como faca em manteiga no verão. Tudo falhou!

Mais uma vez: a teoria da guerra como solução para o combate ao extremismo falhou.

Mais uma vez se prova que ideias não se combatem com armas, que o populismo extremista ocidental não só não combate o extremismo fundamentalista, terrorista e religioso, como o faz crescer exponencialmente. Mais ainda, é no próprio ocidente que faz crescer movimentos fundamentalistas, extremistas, ódios, racistas e até neonazis e fascistas.

Nota final

Foi também num 11 de setembro, em 1973, no Chile, que foi desencadeado um golpe militar que destruiu a democracia, um governo e o presidente, Salvador Allende eleitos pelo povo, instaurando uma sanguinária ditadura chefiada pelo general Augusto Pinochet.

Também aqui esteve o apoio militar e financeiro do governo dos Estados Unidos e da CIA, bem como de organizações terroristas chilenas, nacionalistas-neofascistas, como a Patria y Libertad.

… “São coisas do Mundo/ Retalhos da Vida/ São coisas de qualquer lugar/ Mas se eu fico mudo/ Esse mundo imundo/ É capaz de me tentar mudar”. In “Retalhos”, de Alcione [1976].

Vítor Franco

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

As democracias estão em perigo?

Foto Tiago Petinga, Agência Lusa, Lisboa

Os tempos que correm suscitam indagações.

As democracias não estão em perigo quando: i) as elites e/ou partidos do sistema, normalmente vitoriosos, começam a demonstrar atitudes autoritárias? ii) “porta-vozes” e/ou comentadores assumem profusamente críticas a um país, por exemplo: a Venezuela, mas calam-se perante outros atentados à democracia como o que está a acontecer na Hungria ou na França? iii) líderes políticos e/ou governamentais assumem posições e narrativas que normalizam as da extrema-direita, abrindo-lhes mais a porta, tornando-se a sua fotocópia a preto e branco? iv) no poder, o oportunismo [vindo de entidades ditas de esquerda ou de direita] se sobrepõe aos princípios da Democracia e da República e quando o que se diz hoje se desdiz amanhã? v) a mentira e a manipulação da informação exponenciam o ódio e o ódio se torna uma atração para a conquista de votos e apoios?

O caso venezuelano é mais um exemplo do caudilhismo autoritário sul-americano. Vários opinion makers / influencers referenciam-no como sendo um regime de esquerda porque Maduro assim se define, o que só remete para a incompreensão ou má intenção. A autodefinição de um conceito não significa a verdade. Assim, considerar Maduro como político de esquerda [ou o Partido Comunista Chinês como comunista] é um erro que só favorece a ascensão e os créditos à direita! A Venezuela vive uma tragédia que se abate sobre o povo levando a que mais de 7,1 milhões de pessoas tenham deixado ou fugido do país… Um país “rico” com as maiores reservas de petróleo do mundo

Aqui por perto, o país da esperança, “Liberté, Égalité, Fraternité” não nos faz refletir?

Compreende-se melhor o percurso francês com um olhar ao artigo da professora universitária, em Paris, a portuguesa Cristina Semblano, intitulado “O macronismo, antecâmara do fascismo”, jornal Público.
“Emmanuel Macron, promulgou em 2016 a mais neoliberal Lei do Trabalho do pós-guerra – dita El-Khomri –, sem votação no parlamento, fazendo ouvidos moucos à oposição e ao clamor da rua”. Declarou “o estado de emergência em França, cujas leis de excepção, a coberto da protecção da população contra as ameaças terroristas, foram utilizadas para restringir direitos fundamentais, entre os quais o direito de manifestação. E foi o autor da proposta, cara à extrema-direita, de retirada da nacionalidade francesa a cidadãos binacionais mesmo nascidos em França”.

Foi o mesmo Macron que, perante a esmagadora derrota do seu partido nas eleições europeias e a vitória da extrema-direita, decidiu dissolver o parlamento e convocar eleições gerais. Macron julgava que o seu partido ia voltar a ser o refúgio de todos quantos queriam impedir a vitória do partido de Marine Le Pen. Ao invés, a esquerda uniu-se construiu um programa alternativo ao neoliberalismo radical e foi a coligação de esquerda – Nova Frente Popular (NFP) – quem venceu as eleições e teve o maior número de deputados, 182.

Nestas eleições a NFP teve papel destacado liderando a concentração de apoios com a desistência de candidatos seus para outros em melhor posição – nomeadamente apoiantes de Macron – possibilitando a estes conseguirem o segundo lugar, com 168 deputados, fazendo a extrema-direita passar de mais votado [na primeira volta] para terceiro lugar com 143 eleitos.

E qual a “paga” agora de Macron? Diaboliza a esquerda depois de ter precisado e usado o apoio desta para conseguir eleger os candidatos “macronistas”, ataca-a comparando-a à extrema direita, recusa um governo de esquerda e tenta formar um governo alheio aos resultados eleitorais. Democracia, para que te quero?!

Tal como aconteceu em Portugal, Espanha, (…) Macron devia chamar a coligação mais votada a indicar o primeiro-ministro e formar governo; se depois consegue apoio parlamentar ou tem o governo viabilizado já é a fase seguinte.

A exigência de respeito pela Democracia tem de valer para todos, na Europa ou fora dela!

Vítor Franco

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A nossa terra precisa de incentivos positivos

Imagem Depositphotos

(Para ouvir em podcast clique aqui)

O envolvimento das comunidades na construção das opções e decisões para a sua terra precisa de um incentivo positivo.

É recorrente falar-se sobre alheamento, desinteresse ou passividade face às necessidades que as pessoas e a vivência na pólis reclamam. Em termos correntes, dir-se-á que a população não quer saber de política! No entanto, continuam os atropelamentos na cidade, o lixo persiste entremeado com arbustos, as fezes de animais cujos donos ou donas carecem de educação, as descargas ilegais de lixo nas barreiras da cidade, o desrespeito pelas regras de condução e estacionamento [ao ponto de impedirem a passagem de um peão e muito menos de um carrinho de bebé], o desrespeito pelo património, a ausência popular nas assembleias municipais ou de freguesia…. Poderia juntar muitos exemplos!

Acresce, Santarém está a reforçar o “seu” papel de lugar dormitório de Lisboa com a fuga da capital de gente que não consegue suportar os preços da habitação. Esse fator convoca a reflexão sobre as consequências de uma cidade dormitório.

Posto isto, há dois caminhos que se bifurcam em duas linhas de orientação nas autarquias:

Uma procura aplicar a sua linha política apresento-a como a melhor, a gestão eficaz, a mais competente, a que melhor serve a comunidade, a que é – no fundo – a de argumentário mais fácil confortável e fácil para um autarca fazer. Porquê? Porque essa linha política assenta numa decisão unicamente de cima para baixo, ainda que seja sustentada por vitória eleitoral. Essa é a linha seguida no nosso concelho, em particular, pelas presidências da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia da Cidade.
De modo distinto, a linha que procura o exercício da cidadania, ter cidadãos e cidadãs que pensam pela sua própria cabeça, que fomenta o gosto pela terra onde se vive, a ação cívica das pessoas em prol da comunidade [consequentemente de si próprias em ação solidária e construtiva, não de um egoísmo e individualismo que critica tudo e todos a partir do seu sofá – mas nada faz], pessoas com espírito crítico que são parte da solução e não parte do problema.

O concelho de Santarém, em particular a freguesia da Cidade [que conheço muito bem], tem excelentes exemplos de cidadania e de voluntariado: é o caso das associações culturais e recreativas, clubes desportivos, comissões de moradores, comissões de festas, grupos de dadores de sangue (…) compostas por dirigentes que dão o melhor de si para um bem comum. Essa energia positiva é fundamental para Santarém ter vida própria, precisa de ser mais apoiada pelos poderes autárquicos.

Cabe perguntar: queremos que a cidadania seja amorfa, composta de pessoas que se limitam a consumir as decisões dos poderes autárquicos?

A minha linha de orientação incentiva as pessoas que criam jardins como o fazem na Rua Dr. António Maria Galhordas ou na Prof. Manuel Bernardo das Neves, que fazem limpeza de chafarizes e de ruas como fez o movimento “No coração da cidade – Santarém”, que proteja o meio ambiente ou a cultura da sua terra como fazem o movimento Movimento Ecologista Vale de Santarém ou a sua identidade como a Associação Cultural Vale de Santarém – Identidade e Memória, ou que proteja os animais incluindo os errantes abandonados por seus donos, entre muitos e tantos outros bons exemplos.

Aqui chegados, há que refletir porquê a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia da Cidade não colocaram em prática os Orçamentos Participativos aprovados respetivamente em 2021 na Assembleia Municipal e em 2020 na Assembleia de Freguesia da Cidade. É que os O.P.s são ferramentas provadas que fomentam o gosto, a responsabilidade e o compromisso com a terra onde se vive.

A nossa terra precisa de incentivos cívicos positivos, os orçamentos participativos são um exemplo.

Vítor Franco

 

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Toulouse, a cidade rosa


Esta “coisa” de escrever em tempos de férias… Não dá muito para falar de coisas sérias, se bem que as férias pagas tenham sido uma grande conquista dos trabalhadores.

Na falta de novas grandes viagens em bicicleta, não levais a mal que “faça render o peixe”, até porque abundaram as lesões e não abundou aquilo com que se compram os melões… Enfim, acrimónias minhas…

A pedido de várias famílias [conversa para fingir que foi muita gente] venho partilhar mais algumas experiências do Canal du Midi.

– Que chato! Já estou a ouvir! Bem, direi só umas breves palavras sobre Toulouse – a linda cidade rosa que me “ficou no goto” –, onde ganhei amigos franceses também apaixonados por esta “maluqueira” de pedalar kms e kms e demorar um dia a fazer o que num carro se faz em uma hora… Vamos à chegada à cidade rosa.

A chegada ao aeroporto da cidade foi fácil [há ligações lowcost], descobrir a caixa com a minha bicicleta é que não. O translator lá foi ajudando, “monsieur, mon vélo n'est pas venu?!”.  Lá eu ia insistindo com os funcionários que estavam na entrega das embalagens fora de formato. Ao princípio não me ligaram muito, então eu lancei o meu truque secreto, fiz voz mais grave, e, francofonamente, arranhei qualquer coisa a parecer: “eu sou português, venho para Toulouse andar de bicicleta e agora a bicicleta não aparece, não pode ser”!

Vocês podem não acreditar, mas a afirmação “eu sou português” é ótima para gerar simpatia, ou então para parecer um “atrapalhado”, o que é certo é que já me livrei de multas por não validar bilhetes de comboio, fui perdoado pela polícia por ter entrado em zonas proibidas [aqui tive que responder ao polícia que indagou porquê eu ter passado as fitas sinalizadoras: “Cristiano Ronaldo, sem me rir!], outras mais…

Bem, finalmente um funcionário decide ir procurar a minha caixa de bicicleta, e, por fim, lá apareceu com ela, estava num elevador disse; ele não sabia explicar porquê e eu quase não o percebia, ficámos empatados. Talvez se eu tivesse arranhado em occitano ele entendesse; eu também levava essa cábula linguística, ciclista prevenido é como pneu com líquido antifuro…

Pronto, passei à fase seguinte, montar a bicicleta: a montagem foi “supervisionada” por trabalhadores do aeroporto que iam assistindo divertidos e fumando cigarros. Tirar as proteções, colocar os ferros da tenda por baixo do quadro, cada bolsa em seu sítio, selim regulado na altura certa, volante e ângulo dos manípulos dos travões e mudanças, pedais, etc e tais…

No fim de colocar todo o lixo nos devidos recetores pedi informações aos fumadores de como chegar à cidade… Simples, “via metro de superfície, barato e bom”, ok, porreiro, chegado ao metro, lá tive de ir pedir nova ajuda” para tirar o bilhete correto a outro “descendente de Junot”. Com esta conversa toda e ainda não falei da cidade…

Saí no Palácio de Justiça e de lá dei a volta pelo centro da cidade rosa, tendo como objetivo o posto de turismo situado na belíssima torre da Capitólio.

Como é costume começou a chuviscar, S. Pedro adora receber-me assim. Num café fiquei à conversa com um casal que se interessou pela bicicleta e Portugal. Chega-se o tempo de me aproximar da casa do casal até então desconhecido e amigo warmshower... Ainda deu para espreitar a Cité de l'espace [visitei esta atração no dia seguinte] e fotografei a réplica [julgo] do Ariane.

O jovem casal, que me recebeu em sua casa, tinha feito a rota da seda em bicicleta; claro que a primeira noite foi uma maravilha de receber tão belas vivências e tão marcadas experiências.

No dia seguinte visitei a cidade. A primeira evidência que salta à vista é o excelente trabalho de ligação e usufruto popular ao rio Garona e ao canal du Midi. As pessoas usufruem de margens tratadas e frondosas, há ciclovias, atos culturais, património (…) vida! Mais uma lição para Santarém, “fui dizendo aos meus botões”.

Não vos maço com mais descrições [sugiro verem as ligações nas palavras azuis], realço ainda o centro histórico, o Museu da Resistência e da Deportação, o Convento dos Jacobins, a Catedral de Saint-Étienne e a Basílica de St. Sernin, património mundial.

Fico satisfeito se vos agucei o apetite para visitar a linda Toulouse. Se a curiosidade vos impeliu a fazer o belo canal du Midi em bicicleta, ide amigos, ide! Se precisarem de informações para planearem a vossa viagem cá estarei.

Vítor Franco

Poderá também ler e ouvir:

https://maisribatejo.pt/2021/11/06/abc-de-uma-viagem-em-bicicleta-pelo-canal-du-midi/

https://maisribatejo.pt/2021/10/02/cronica-visual-do-canal-do-midi-em-franca-a-ecovia-do-rio-tejo-video-e-podcast/

https://maisribatejo.pt/2024/08/13/cronicas-de-viagem-em-bicicleta-canal-du-midi-por-vitor-franco-c-podcast/

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Pós-verdade é anti-democracia, a caminho da idade média!

Créditos de imagem: em-rede.com 

Os tempos que correm trazem-nos desafios inesperados, que poderiam convocar a nossa reflexão. A comunicação de ideias e mensagens em “pós-verdade” trouxe renovados apelos ao ódio agindo em irresponsabilidade quase total perante o respeito para com pessoas e/ou comunidades. O ser humano transforma-se vulgarmente em carneiro que segue o rebanho e este segue o pastor.

Partilho este olhar:

A pós-verdade é a aceitação de uma informação por um indivíduo ou grupo de indivíduos, que presumem a legitimidade desta informação por razões pessoais, sejam preferências políticas, crenças religiosas, bagagem cultural, etc. Assim, a pós-verdade não implica necessariamente em uma mentira (tendo em vista que a informação não verificada pode ser verdadeira), mas sempre implica em uma negligência com relação a verdade.”s partiu da informação – falsa – de que o assassino das três crianças era um refugiado. Os pais sim, eram

A recente onda de violência, desencadeada pela extrema-direita inglesa, contra pessoas imigrantes e refugiada imigrantes, o jovem é simplesmente um inglês. Para os incendiários da violência basta o jovem ser negro para ser sinónimo de imigrante ou refugiado. Ora se um jovem é negro, ou refugiado, ou imigrante, o adjetivo de criminoso transmite-se a toda a comunidade e toda esta está a ser atacada.

Estas situações não são novas no mundo e muito menos em Portugal. Vejamos a matança de judeus, em Lisboa, na páscoa de 1506. Cito da Wikipédia: “historiografia situa o início da matança no Convento de São Domingos de Lisboa, no dia 19 de abril de 1506, um domingo, quando os fiéis rezavam pelo fim da seca e da peste que grassavam em Portugal, e alguém jurou ter visto no altar o rosto de Cristo iluminado — fenómeno que, para os católicos presentes, só poderia ser interpretado como uma mensagem de misericórdia do Messias — um milagre. Um cristão-novo que também participava da missa tentou explicar que esse milagre era apenas o reflexo de uma luz, mas foi calado pela multidão, que o espancou até à morte”. A partir daí todos os judeus passaram a ser os hereges culpados da peste e mais de 4000 foram assassinados em apenas três dias por multidões em fúria.

Outro exemplo, bem contemporâneo, acontece entre nós quando um dirigente político ataca toda a comunidade cigana apelidando todas essas pessoas de ladrões e afins. O mesmo faz com os imigrantes acusando-os de viverem à nossa custa [não acusa os banqueiros] – sabendo perfeitamente que está a mentir –, pois os imigrantes dão lucro ao Estado Português e estão a contribuir com mais de mil e quinhentos milhões de euros para a segurança social, ajudando assim a pagar as reformas e os apoios na saúde de todos nós.

A recente polémica acusando a pugilista argelina Imane Khelif de ser trans e disputar um combate em posição mais favorável à outra atleta feminina trouxe à opinião pública uma variedade inaudita de disparates. Dirigentes partidários e de países, deputados [incluindo Rita Matias do Chega], uma infinidade de gente que se tornou instantaneamente especialista em ADN, cromossomas X e Y, elegibilidade de género, testosterona, regras internacionais de boxe, (…), usaram a imprensa e as redes sociais para afirmar a sua ira contra uma mulher trans, afirmando ser um atentado contra as mulheres e a propagação da ideologia de género” até nas olimpíadas. Tal ira, nos e nas emissoras de opinião, tem três coisas em comum: i) pertencem ao lado extremista da direita, ii) nada fazem contra a violência doméstica que todos os anos vitimam dezenas de mulheres em Portugal e muitas milhares no mundo e iii) acusam uma pretensa “ideologia de género” para carrear ódio contra a diversidade humana, os direitos das próprias mulheres e a nossa própria democracia.

Por fim, sem qualquer assomo de petulância, será positivo que pensemos pela nossa própria cabeça, que construamos a nossa opinião fundamentando-a, que debatamos em respeito e em solidariedade – sem ódios! A pós-verdade, transformada em mentira, só cria ódio e transforma pessoas em carneiros!

Vítor Franco

sexta-feira, 26 de julho de 2024

As mãos no pote do dinheiro público

311 empresas com auxílios de Estado, considerados ilegais, no valor de 833 milhões de euros. Considerados ilegais por quem? Pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, isto porque o Estado Português aplicou-lhes “taxas de IRC reduzidas [de 3%, 4% e 5%] sem controlar se as empresas cumpriam as condições necessárias”. Notícia de 05/07/2024, Jornal Público.

“Cruzamento de dados descobre 16 mil pessoas a enganar o Estado”… "o valor dos pagamentos detetados que não foram declarados pelos contribuintes para efeitos de IVA e de IRC ascende a mais de 400 milhões de euros". Notícia de 04/12/2023, Jornal Expresso.

Estas duas notícias são apenas algumas das muitas que aqui se poderiam partilhar. Das milionárias isenções de imposto de selo, das benesses ainda muito mais milionárias no abatimento do IRC das empresas a partir da Lei do Orçamento de Estado – beneficiando grandes grupos económicos que (ab)usam da “engenharia financeira” em prejuízo da comunidade e das pequenas empresas (...), há um sem número de facilidades que descapitalizam o Estado Português.

Dir-se-á que são as regras de um “sistema” que se quer competitivo fiscalmente, face à concorrência de países como a Irlanda e outros países com paraísos fiscais. Ledo engano. A dogmática asserção, sem comprovação real, em rigor distorce o bem comum, desequilibra as contas públicas e fragiliza o Estado e as suas responsabilidades para com as e os seus cidadãos.

O “fio de prumo” deste intento é coerente com o argumentário dos liberais sempre exigindo redução de impostos em desprimor da sua justa e correta aplicação nos serviços públicos de saúde e educação.

O paradigma consubstanciado no lema “menos Estado, melhor Estado” provou a sua iniquidade castigando os serviços públicos, os seus funcionários e quem necessita dos serviços próprios e necessários a um país moderno. Este paradigma faliu – há que referenciar, sem temor!

O referido lema retornou ao centro do poder agora com um argumento auxiliar que se tornou o principal: “se o serviço público não é capaz, reforçam-se os serviços públicos contratualizando no privado”. Parece lógico e de bom senso, parece, mas desconvoca a necessidade de melhoria desses mesmos serviços públicos transformando estes em plataforma de negócio do privado. Um dos exemplos mais “caricatos” acontece nas urgências dos hospitais com os médicos de empresas privadas a ganharem em três dias o que um médico de carreira pública ganha num mês.

O lema de “menos Estado” tem consequência dura para muitas pessoas. Vejam, só este exemplo: em quantos serviços públicos se fazem endoscopias, ecografias às partes moles ou colonoscopias? Agora, vejam quanto custam no privado!

Querem mais exemplos?

Vítor Franco

domingo, 30 de junho de 2024

Há democracia com tantas pessoas sem abrigo?

Foto da Av. 5 de outubro, Lisboa, tirada a 25 de junho de 2024

Estávamos em convívio na sede da SRO, em Santarém. Um dos atletas da nossa equipa, Desafios Positivos D+, tinha feito anos e, como é habitual, juntámo-nos para festejar.

Cerca das 21h um senhor desconhecido entra na sede e dirige-se à sala de convívio. Perguntámos se precisava de alguma coisa e que desejava.

– Tenho fome, disse.

– Sem problema, disse-lhe. Mandei-o sentar-se e servi-lhe dois pratos da nossa comida.

Puxei conversa, indaguei de onde vinha e porque estava por cá. Disse-me que é português e foi emigrante. Regressado a Portugal a vida não lhe terá corrido bem. Vagueava de terra em terra procurando a sorte que lhe tinha fugido. Estava também sem abrigo, considerava-se um refugiado no seu próprio país o que ele próprio era uma revolta pois dizia ser “um homem de Deus”.

Enquanto comia discorreu sobre os outros pobres, ou outros sem abrigo que considerava uns privilegiados até porque dormiam em albergues ou tinham apoios sociais. Criticou os horários dos albergues noturnos que obrigam à saída matinal e a sua disciplina. Falou da prostituição entre pessoas sem abrigo, em troca de algum para a droga… Recordei os fins de 2007, início de 2008, quando participei no Porto numa equipa que elaborou um vasto trabalho de campo e que teve fim feliz em vários projetos-lei do Bloco de Esquerda e no “Livro Negro, sobre a pobreza no distrito do Porto”, cuja capa é precisamente o Albergue Noturno do Porto. Recordei-me da visita a este Albergue e da dedicação que as e os funcionários dedicavam a estas pessoas. Alguns dos problemas dos sem abrigo eram a perda da documentação, a ausência de morada fixa para ter eficaz acesso aos subsídios e apoios sociais ou – imagine – a burla que alguns empresários lhes faziam que, em troca de parcos euros, usavam a identidade dos sem abrigo para negócios escuros; depois, as pessoas sem abrigo eram vítimas de problemas judiciais e acusados de crimes que em todo desconheciam.

Voltando ao “refugiado”, para a sua dormida, nessa noite, sugeri que contatasse os Bombeiros Voluntários, talvez lhe pudessem dar algumas indicações. No fim de comer saiu, sem mais… Regressei ao convívio.

Este episódio fez-me lembrar outras situações de pessoas sem abrigo que tenho visto a dormir em Santarém. Confesso que é das situações que mais me incomoda, em particular se forem idosos, talvez por isso volto ao tema neste jornal. Já vi pessoas a dormir em entradas de bancos onde se situa o multibanco, em recantos mais abrigados de prédios e até em casas abandonadas. Tenho a sensação de que este problema se tem vindo a agravar, transportando consigo as restantes exclusões sociais.

Também me incomoda que a Assembleia Municipal tenha recusado a proposta da deputada municipal Ana Eleutério para melhorar as condições em que se dá apoio municipal ao arrendamento. Em rigor, “é praticamente inalcançável para quem possa necessitar de recorrer ao mesmo”. O apoio municipal existe para quem tenha até 509 € de rendimento mensal e more no concelho há mais de três anos, ou seja, é um subsídio dado a quase ninguém. Incomoda-me que nenhuma das forças que tem vereadores da Câmara tenha votado a favor! Enfim, cada eleito é livre de votar como quer… 
Vítor Franco
(Publicado no Jornal Mais Ribatejo, veja aqui)

domingo, 16 de junho de 2024

O homem do chafariz

Chafariz da Praça da Armada - 1661, créditos da Câmara Municipal de Lisboa.

Caminho pela rua, sigo tranquilo e pensativo, tinha estado com colegas que trabalham por turnos rotativos…. Dormir na vez das horas que o ditame laboral impõe, ver filhos e filhas quando dormem, deitar na cama ainda quente de pessoa já ausente…

São umas dez horas da manhã, tínhamos estado numa esplanada a tomar café, os colegas tinham trabalhado de noite, a cafeína ajudava, mas as palavras não poderiam ser longas que os olhos tendiam a fechar-se. Tinha tomado notas para o sindicato apresentar à empresa, pensativo recordo os meus tempos de onze anos em turnos, coisas do passado, quando começamos a envelhecer estamos sempre a falar do passado…

Caminho, pensativo…

Ao chegar ao chafariz da Praça da Armada vejo um homem deitado em cima de um papelão, tapado com um cobertor, resguardado do vento pelos lados curvos das guardas laterais. Não parece ter frio, quiçá o calcário lioz lhe devolve o calor que o vida lhe nega. Deve ter uns 50 anos, parece bem apresentável, paro a olhar para ele… O homem sente a minha presença e levanta a cabeça como que a indagar o que queria eu dele… Que poderia eu dizer?

Sabe-se que há gente a dormir na rua que, embora trabalhe, não consegue pagar uma renda, tomam banho e guardam roupa no lugar onde vendem barato a sua força de trabalho – tão barato que lhe rouba a dignidade de um repouso humano…

Que poderia eu dizer ao homem sem cama que dormia no chafariz sem água? O chafariz está datado de 1845, a dignidade desta pessoa também parece assim estar, 1845… Desta? Não, de tantas pessoas que dormem nas ruas nesta cidade onde são muitas mais as camas vagas para repouso de turistas… Camas sem pessoas e pessoas sem cama…

O chafariz não tem água, não tem peixes, registado com o número dez, regista também o abandono da magnífica rede de distribuição de água em chafarizes que acompanhou outras obras magníficas como o aqueduto… Transeuntes passam por ali e ignoram o chafariz sem água, ignoram também o homem sem cama que lá se acolheu, alguns turistas param e tiram fotos a jeito de não registar o sem abrigo que fez do monumento o seu abrigo sem água.

Que poderia eu dizer ao homem que me olha? Não sei o que lhe dizer, aceno a cabeça em jeito de bom dia, recomeço o caminho, pensativo…

Vítor Franco
(publicado no Jornal O Ribatejo, veja aqui)

OS INADIMPLENTES E A INADIMPLÊNCIA

Minha mãe e meu pai tinham livros de registo de dívidas nas suas mercearias. Era normal haver clientes a comprar fiado, pois muitas vezes re...