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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Um mundo infestado de demónios

Ilustração digital. Mais Ribatejo/IA

Este é o título de um dos magníficos livros de Carl Sagan. Na contracapa o texto começa com a pergunta: “Estaremos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição?”

Os livros, por vezes, “caiem-me” nas mãos. O caso é que “Um mundo infestado de demónios”(1) chamou-me lá do meio da estante, lá onde Sagan “toma café” com Hubert Reeves, Stephen Hawking e outros, que fizeram da incitação ao conhecimento um contributo determinante para um futuro positivo da humanidade.

Carl Sagan veio “atrapalhar” as minhas leituras de “O enigma de Israel”, de Henrique Cymerman e “A vegetariana” de Han Kang. O livro foi publicado pela primeira vez em 1995 e em Portugal em setembro de 1997 numa edição Gradiva. Mas é fabuloso, basta olhá-lo que a nossa mente vai perguntar: o que trará sobre os tempos que correm?

Terei lido este livro há uns 23 ou 24 anos [nem sei], preciso de voltar a embrenhar-me nele, acompanhado da minha caneta de cores. Preciso de voltar a sublinhar, a comentar, aos meus pontos de exclamação e interrogação, a escrever perguntas interpelando o livro como se fosse um diálogo vivo. Recorro às minhas notas e sublinhados de então, partilho algumas convosco.

Nós seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam.” [pág.422]

Esta frase faz-vos pensar em algo? Estais de acordo que temos medo dos desconhecidos ou das pessoas diferentes? Encontrais aqui algo em que o racismo se possa apoiar hoje para manipular as mentes humanas?

E por falar em manipulação, dou, de novo, a palavra a Sagan…

Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer – mesmo coisas que sabemos erradas”. [pág. 423]

Sagan, e sua esposa, Ann Druyan, que colaborou na escrita do livro, relacionam esta problemática com a democracia e as suas ferramentas de defesa. Aliás, um problema que atravessa a Europa e Portugal em particular. Como é que a democracia se defende de quem a usa para a destruir? Como é que a democracia suscita a participação cívica para que não seja repressiva e até onde vai essa tolerância? Questões bem evidentes nos recentes episódios de ódio que são públicos.

O livro coloca um exemplo:

“Randall Terry, fundador [chefe] da Operação Resgaste, uma organização contra as clínicas de aborto disse numa reunião em 1993: Que uma onda de intolerância se abata sobre vós… Sim, odiar é bom… O nosso objetivo é uma nação cristã… Fomos chamados por Deus para conquistar este país… Não queremos pluralismo”.

É interessante verificar como estas afirmações, com mais de 30 anos, bem longe deste pequeno país “à beira-mar plantado”, são repetidas por um político que afirma ter uma missão perante Deus, uma ação cristã… Estas narrativas são comuns em vários países do mundo nos personagens que corporizam os discursos de ódio, liberalização e livre posse das armas, confronto contra os direitos das mulheres, dos imigrantes, etc.

Sagan e Ann Druyan trazem ao livro uma interessante abordagem de Thomas Jefferson, que foi o 3.º presidente dos Estados Unidos (1801–1809) e principal autor da Declaração de Independência. Apesar de ser uma figura polémica [por exemplo: defendia as liberdades, mas terá tido centenas de escravos], Thomas Jefferson é chamado ao diálogo com algumas das suas intervenções. Deixo-vos com a sua afirmação de que era “essencial que as pessoas se educassem a si mesmas e se envolvessem no processo político. Sem isso, dizia ele, os lobos vencerão”. Jefferson usava por vezes a classificação de lobos e cordeiros para diferenciar poderosos e fracos, dominantes e dominados.

Neste mundo infestado de demónios, queremos que os lobos vençam?

Vítor Franco

P.S. Sagan dedicou este livro ao seu neto Tonio, “Desejo-te um mundo sem demónios e pleno de luz”.“Um mundo infestado de demónios”, Carl Sagan, Gradiva, setembro de 1997.

Artigo também publicado no Jornal Mais Ribatejo aqui.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Tu pertences a ti / Não és de ninguém…

Convento das Capuchas em Santarém
“Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém
De ninguém”…

Esta quadra da canção “Nasce Selvagem”, do saudoso grupo Resistência, pode trazer-nos nostálgicas recordações. Pode, trago-a a esta partilha para acompanhar a lembrança de tantas crianças que nascem sem ninguém.
(Ouça aqui o podcast:)

É um lugar comum que nestas quadras festivas se recorde, ou presentei, quem não nasceu em berço de carinho ou posses. É…! Quiçá, assim se descarregam consciências pesadas de um ano desprovido de sensibilidade e humanidade.

Talvez também eu tenha caído em tal falta, quando só agora tenha decidido escrever sobre a roda do Convento das Capuchas.

Este Convento, ali na entrada do Bairro do Pereiro, lugar do meu crescimento, lugar de passagens apressadas sem perguntar: o que estará para além daquela porta? Não fazer perguntas é das coisas mais nefastas a que podemos entregar a mente. Foi preciso passarem décadas para que a indagação tenha exigido tocar à campainha. Quis saber da história da roda e do Convento.

Ali, pelos tempos idos do século XVIII, se construiu uma roda para entrega dos nascidos sem sorte de amor ou enchimento de colher. Nascidos de amores escondidos, de pobres sem eira nem beira, de trabalhadores quase escravos, das e dos que já então dividiam uma sardinha por três para uma fatia de pão de milho como os e as nossas avós. Ali se fazia a entrega anónima de quem nascia para viver “selvagem”.

Luiza Andaluz criou ali, em 1925, um novo lugar de acolhimento solidário, a que deu o nome de “Asilo Creche de Nossa Senhora dos Inocentes”. E, aos inocentes – pois que de nada são culpados – Luiza poderá ter dito “E para ti serás alguém / Nesta viagem”.

Aquele bairro, o do Pereiro, que em tempos terá sido lugar de acampamento romano, tem um lugar de paz e construção. No lugar onde cresci, ali ao pé da antiga “escola das meninas”, ali perto de onde “subtraía” nêsperas deliciosas do quintal de um vizinho, está um lugar de acolhimento mesmo que ele passe despercebido à comunidade.

Hoje continuam a nascer inocentes, crianças “sem ninguém”, vítimas de uma pobreza cultural e económica que persiste neste modelo de sociedade realmente existente. Continuam a nascer “selvagens” que não são de ninguém, a não ser da “má sorte”, apesar da boa nova de abril. Abril sussurra-nos por socorro, que o passado está a destruir o futuro, que o ódio se fez presente e expulsou a tolerância, o respeito e a solidariedade. Abril grita – mas poucos o ouvem -, na alienação que tolhe pensamentos e turva a visão! Nesta alienação, parida do ódio do “estado novo”, há palavras e actos exauridos: diálogo, sinceridade, luta, esperança…

Ali, no Bairro do Pereiro, há lugares com esperança para todos – para que todos sejamos alguém, nesta viagem!

Vítor Franco
P.S. O convento é propriedade da Fundação Luiza Andaluz.
Artigo também publico no jornal Mais Ribatejo aqui

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Do atentado terrorista na Austrália para o mundo, ódio alimenta ódio

Um salva-vidas coloca flores num memorial improvisado na praia de Bondi, em Sydney, Austrália, em 16 de dezembro de 2025. A Austrália está de luto após um ataque às celebrações do festival de Hanukkah da comunidade judaica, em 14 de dezembro, que deixou pelo menos 16 mortos, incluindo um atirador. EPA/MICK TSIKAS AUSTRÁLIA E NOVA ZELÂNDIA

Começo por enviar os meus pêsames às comunidades judaicas e repudiar este horroroso ataque terrorista antissemita.

Este ano estive numa abertura do Hanukkah em Lisboa, tal como estive no Rosh Hashaná que celebra o ano novo judaico – com todo o gosto. Também já estive na sinagoga em cerimónia para a qual fui convidado.
Também, com todo o gosto, fui padrinho de casamento [o nikah] de um jovem muçulmano, ofereci o fato ao noivo, participei com alegria na festa [a walima] e na comidinha boa que juntou comunidade e amigos. Foi com pesar que estive no funeral do pai do meu afilhado, assisti à cerimónia [Salat al-Janazah] na mesquita de Lisboa e acompanhei-o no enterro.
 
Estes parágrafos iniciais identificam uma forma de estar ecuménica que valorizo positivamente e também está sendo atacada. O fanatismo religioso está a ser usado e está a caminhar a par do crescimento dos ódios e dos extremismos. Em pleno século XXI há dirigentes e governantes políticos que afirmam falar com Deus, ser possuidores de tarefas por Ele mandatadas, negacionistas da evolução das espécies e da natureza humana e que pretendem impedir a ciência proibindo ou condicionando livros e currículos escolares, afirmando que a terra é plana. Tais fanatismos, não vem só dos países islâmicos, atingem até os EUA, nomeadamente a proibição [dita descontinuação] em alguns Estados de conteúdos sobre sexualidade, identidade de género, racismo, história afro-americana… (1)
 
O ódio e o racismo são hoje armas de manipulação das mentalidades de centenas de milhões de habitantes deste planeta finito, onde se negam alterações climáticas e até vacinas, mas que ganham eleições. Poder-se-á dizer que a manipulação das massas via redes sociais e mentiras faz lembrar a idade média? Talvez… Não sei responder, mas sem redes sociais, fez-se a matança de judeus de Lisboa, a “matança da Páscoa de 1506, em que uma multidão perseguiu e matou milhares de judeus acusados de serem a causa de uma seca, fome e peste que assolavam o país”.
 
Em nome de uma religião, odiam-se “infiéis”, criam-se fantasmas como a teoria da substituição e da colonização da Europa pelos imigrantes islâmicos – esquecendo os crimes da escravatura, do colonialismo ou a opressão dos povos africanos. Pretende-se proibir igrejas “alheias” quando, em nome da fé, se fizeram matanças em todo o planeta e se implantou uma igreja colonial. E nem é preciso recorrer às Américas ou a África – veja-se o que fizeram as tropas católicas romanas na extinção do povo cátaro no sul de França.
O facto de eu não acreditar na existência de um Deus [sou ateu] não significa que não respeite quem acredita e [acho eu] credita-me de um olhar mais aberto – também responsável - para olhar o crescimento do ódio e do racismo no mundo.

É preciso ver a vida como ela é!

A vida humana é diversa, multicolor e multicultural. Mas todas as pessoas são feitas exatamente da mesma carne, dos mesmos ossos, do mesmo sangue. O ser humano, enquanto ser, só tem garantia de sobrevivência no respeito da diversidade pois é esta que faz a sua Unidade enquanto espécie!

- Que diriam vocês se a cerimónia de Hanukkah ou a sinagoga, onde estive, fosse atacada por fanáticos de ódio e religião e me matassem? 
- Que diriam vocês se a cerimónia fúnebre do pai do meu afilhado, na mesquita, fosse atacada por fanáticos de ódio e religião e me matassem?
 
Depois do 25 de abril o “internacionalismo proletário” era muitas vezes invocado, e bem, para negar as guerras injustas, a opressão de povos pela elite dominante de outros povos, a matança entre pessoas que nada decidem e só obedecem às chefias militares e políticas. São precisos diálogos ecuménicos e para a paz entre os povos, as esquerdas têm uma especial responsabilidade nisso.

TODOS OS POVOS TÊM DIREITO À SUA IDENTIDADE, AUTODETERMINAÇÃO E DEMOCRACIA.
 
Talvez hoje se possa invocar e globalizar o internacionalismo solidário e democrático. A tarefa parece ciclópica, mas é um problema candente que exige solução!

(Artigo e podcast em Mais Ribatejo)
Vítor Franco
(1) Fontes: UOL, Veja, GnewsUSA, Aventuras na História, Revista Fórum

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Dos factos à greve geral

Foto de António Cotrim / Lusa.

Entre 2000 e 2025, as empresas do PSI 20 acumularam aproximadamente 100 mil milhões de euros em lucros líquidos, com forte participação das empresas de energia, banca, retalho e papel. Destes lucros, distribuíram 60 mil milhões aos acionistas, taxa média de distribuição (payout ratio) de 60% ao longo do período, segundo o Jornal Económico. Tudo isto apesar de covid, guerras, instabilidade política e financeira na Europa e no mundo (…) a prioridade foi remunerar acionistas!

A EDP destacou-se. Hoje a digitalização das redes e da sua operação, os telecomandos e a inovação tecnológica, as inovadoras formas de produção de energia diminuíram exponencialmente a mão de obra. A contratação de empreiteiros para tarefas permanentes, substituindo trabalhadores do quadro por precários subcontratados, vai tornando o trabalhador com direitos estáveis numa “espécie em regressão”.

Coincidência, ou talvez não, i) o atual secretário de Estado era o anterior responsável das relações laborais da EDP, ii) os argumentos deste governo na pretensão deste pacote laboral são idênticos aos usados pela EDP para tentar agora a denúncia do Acordo Coletivo de Trabalho.

Como salientou a economista Helena Garrido, o país tem um enorme “peso dos sectores de valor acrescentado muito baixo”. Este facto é estrutural há muitos anos no país, no desiderato da competitividade. Portugal especializou-se a servir à mesa, a fazer camas, a produzir frutas de elevado consumo de água e outras produções de baixo valor acrescentado.

A recuperação salarial de milhões de pessoas castigadas pela troika, pela salvação dos bancos e pela pobreza “endémica”, poderá ter influenciado os custos unitários do trabalho em processos produtivos atrasados e os resultados de pequenas empresas em setores como o calçado, têxteis, e outras empresas de setores intensivos em mão de obra… Muitos empresários têm mostrado resistência à inovação tecnológica, à inovação e à criatividade, mantendo processos de trabalho cuja produtividade depende mais do número de braços e de mais horas de trabalho do que da modernização tecnológica e inovação.

Compreende-se [digo eu] que a “produtividade portuguesa seja 80% da europeia, por trabalhador”; também quando “34% dos trabalhadores têm formação superior, para apenas 28% dos empregadores” [Helena Garrido].

O futuro faz-se com futuro!

A solução para diminuir os custos do trabalho por unidade produzida (CTUP) não passa por obrigar as pessoas a trabalhar sem receber horas extraordinárias, nem por diminuir ainda mais aquele que já é dos salários mais baixos da Europa, nem por destruir a contratação coletiva que constrói democraticamente uma relação comunitária mais justa!

A solução para uma boa economia não passa por retroceder nas relações sociais e empobrecer as pessoas, passa pela modernização, inovação, investigação e fomento dos setores económicos de mais valor acrescentado com empregos de futuro. Uma economia que mantenha os “30 mil jovens qualificados (com ensino superior concluído) que emigram por ano em busca de melhores condições de vida e salários”. Essa fuga “representa uma perda estimada de 2 mil milhões de euros por ano para a economia portuguesa” segundo a Federação Académica do Porto.

Uma vida digna não passa por tornar ainda mais instável e precária a vida das e dos trabalhadores, dificultar ainda mais a maternidade e a paternidade - quando caminhamos para um país de velhos -, e, antidemocraticamente, limitar direitos constitucionais como a liberdade sindical e o direito à greve!

Aderir e apoiar a greve geral de 11 de dezembro é um ato pela justiça e respeito das e dos trabalhadores. Por uma vida digna!

Vítor Franco

P.S. Poderá ler informação detalhada e simples no link do Sindicato das Indústrias de Energia e Águas de Portugal (SIEAP) clicando aqui.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Dia Internacional da Paz, 21 de setembro.

“92 países estão envolvidos em conflitos fora das suas fronteiras, o maior número desde a criação do IGP. E, segundo a ONU, há mais de dois mil milhões de pessoas cujas vidas são, hoje, afetadas por conflitos e guerras, havendo quase 120 milhões de deslocados devido a guerras, perseguições e outras formas de violência.” Jornal Público 19/09/2024.

“Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar/ Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”. Esta é a primeira estrofe do poema “Cantata de paz”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, musicado por Francisco Fanhais. É uma canção poderosa, de uma mensagem e de uma voz que nos devia revolver as entranhas do pensamento e indagar sobre o que a humanidade anda a fazer.

Vale a pena pensar, ao menos este dia que foi declarado pela ONU em 30 de novembro de 1981. O dia que se dedica à paz mundial acontece quando o mundo está envolvido na maior violência pós-segunda guerra mundial.

A jornalista do Público, Carla Ribeiro, no seu interessante artigo, entrevista o escritor José Luís Peixoto que – muito acertadamente – diz que o “conflito torna-se tão normal nas nossas vidas que dá a sensação de que estamos todos um bocadinho adormecidos”. “É o resultado, diz, de uma certa desumanização, também alimentada pela banalização dos temas e da forma como os tratamos”. Em sequência, Carla Ribeiro convoca uma frase do raper Mário Cotrim, ProfJam, que “vê nessa desumanização o reflexo da paz orwelliana, onde a guerra é a paz e que a paz se faz pela guerra”.

A violência assume várias formas, como as de comércio, de ideologia e alienação, de domínio político e militar. A violência entra-nos todos os dias pelos noticiários e fez de vários canais TV, como a CMTV e vários canais crime, lugares de conquistas de audiências. Milhões de pessoas dedicam horas de cada um dos seus dias a ver e ouvir violência, e gostam. A TV e os jogos na net são responsáveis, penso eu, pela exacerbada proliferação de atos violentos inacreditáveis feitos por crianças em escolas. Agora, até em Portugal.

É o efeito da popularização da violência sobre as crianças que me preocupa mais. As crianças são as que sofrem as mais duras consequências da guerra e da violência. Há meninos, que por vezes são obrigados a ser homens armados, meninos-soldados, meninos sem meninice, até meninos forçados a ter ódio!

As crianças estão na “linha da frente” dos refugiados, na fome, na privação da escola, na saúde ou no afeto. Há um mês li um artigo [veja aqui] sobre o menino Khalil num sítio da BBC. O menino sírio, que cruzou cinco países da Europa a pé, ”tinha apenas seis anos quando deixou a Síria, palco de confrontos diários, no auge de uma guerra civil”. Como o menino Khalil, o menino Stefan que fugiu da morte do nazismo e que no Museu Aristides de Sousa Mendes “fala” [agora já um velhinho] com outro menino refugiado de uma das guerras contemporâneas. Antes, como na fuga das 10 000 crianças refugiadas judias de comboio no kindertransport, agora como as crianças que fogem de barco atravessando o Mediterrâneo e quantas as que morrem afogadas.

Talvez o dia 21 motive algo de positivo aos vários governantes de vários países da Europa que estão a expulsar os refugiados que cá chegam, fugidos da fome e da guerra, devolvendo-os ao mar, à morte, ou às ditaduras a quem os países europeus pagaram para lá expulsar os seres humanos refugiados. 
Vítor Franco

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

11 de setembro, de más memórias! (Texto e podcast)

New York City Ground Zero. Foto Depositphotos

Quando o calendário marca o dia a nossa memória recua no baú do tempo e traz-nos as brutais e impactantes imagens dos ataques terroristas nos EUA em 2001. As terríveis imagens dos aviões a embater contra as torres gémeas provocaram uma comoção global, 3 mil mortos e centenas de feridos.

Este ataque talvez marque uma viragem nos ataques terroristas: eles passaram a ser planeados com muita antecedência, ação de surpresa, envolvendo meios humanos especializados, equipamentos e conhecimentos avançados, ataque simbólicos / de mensagem forte e mediatização global do horror provocado.

O mundo interrogou-se como foi possível um ataque desta dimensão, astúcia e “eficácia”, ao centro do centro do império global. Uma “nova” narrativa surgiu desse ataque: a luta entre os bons e os maus, a luta entre civilizações e entre religiões. O racismo e o militarismo substituiram a razão.

O ataque terrorista às torres gémeas foi feito precisamente pelas correntes fundamentalistas e religiosas que se agruparam na Al-Qaeda e que os próprios EUA tinham apoiado financeiramente para treino e armas, para estas se oporem ao exército russo que ocupava o Afeganistão.

Em dezembro de 2001 as Nações Unidas aprovam a criação da Força Internacional de Apoio à Segurança, liderada pelos EUA e pela NATO. O império, ferido, tinha de se “vingar” – o seu poder não podia ser posto em causa. O presidente George W. Bush decide iniciar o seu ataque, denominado "Liberdade Duradoura"” em 7 de outubro de 2001. Coincidência, ou talvez não, o ataque terrorista do Hamas também foi a um 7 de outubro.

A invasão do Iraque

A teoria de combate militar ao “eixo do mal” / “guerra ao terror” leva os EUA a atacarem o Iraque em 2003. Portugal fica tristemente marcado pela cimeira das Lajes, 16 de março, com Durão Barroso, George Bush, Tony Blair e José Maria Aznar, que sinalizou o início da invasão sob o argumento – provado como falso – que o ditador Saddam Hussein estava a produzir armas químicas de destruição em massa. A guerra que chegou a ter mais de 150 mil soldados da força internacional teve como consequência mais de 600 mil iraquianos mortos, milhares de refugiados, um país destruído, o crescimento do ódio fundamentalista e extremista de vários grupos – incluindo da própria Al-Qaeda. Todos os objetivos falharam. O sofrimento do povo aumentou!

Afeganistão, mais uma prova do fracasso da guerra!

Teoricamente a “comunidade internacional” esforçou-se por apoiar os governos pró-ocidentais de Cabul. A Conferência de Doadores de Tóquio para a Reconstrução do Afeganistão, janeiro de 2002, concede 4,5 bilhões de dólares a um fundo gerido pelo Banco Mundial. Eram objetivos: a modernização técnica, infraestrutural e de serviços públicos. Desconheço o resultado dessa avultada aplicação de dinheiro. O que é certo é que a oposição extremista voltou a crescer e estabelece-se uma ofensiva talibã, em 2021, em que o poder cai como um baralho de cartas. Os soldados governamentais passavam-se para os adversários e a sua entrada em Cabul foi como faca em manteiga no verão. Tudo falhou!

Mais uma vez: a teoria da guerra como solução para o combate ao extremismo falhou.

Mais uma vez se prova que ideias não se combatem com armas, que o populismo extremista ocidental não só não combate o extremismo fundamentalista, terrorista e religioso, como o faz crescer exponencialmente. Mais ainda, é no próprio ocidente que faz crescer movimentos fundamentalistas, extremistas, ódios, racistas e até neonazis e fascistas.

Nota final

Foi também num 11 de setembro, em 1973, no Chile, que foi desencadeado um golpe militar que destruiu a democracia, um governo e o presidente, Salvador Allende eleitos pelo povo, instaurando uma sanguinária ditadura chefiada pelo general Augusto Pinochet.

Também aqui esteve o apoio militar e financeiro do governo dos Estados Unidos e da CIA, bem como de organizações terroristas chilenas, nacionalistas-neofascistas, como a Patria y Libertad.

… “São coisas do Mundo/ Retalhos da Vida/ São coisas de qualquer lugar/ Mas se eu fico mudo/ Esse mundo imundo/ É capaz de me tentar mudar”. In “Retalhos”, de Alcione [1976].

Vítor Franco

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

As democracias estão em perigo?

Foto Tiago Petinga, Agência Lusa, Lisboa

Os tempos que correm suscitam indagações.

As democracias não estão em perigo quando: i) as elites e/ou partidos do sistema, normalmente vitoriosos, começam a demonstrar atitudes autoritárias? ii) “porta-vozes” e/ou comentadores assumem profusamente críticas a um país, por exemplo: a Venezuela, mas calam-se perante outros atentados à democracia como o que está a acontecer na Hungria ou na França? iii) líderes políticos e/ou governamentais assumem posições e narrativas que normalizam as da extrema-direita, abrindo-lhes mais a porta, tornando-se a sua fotocópia a preto e branco? iv) no poder, o oportunismo [vindo de entidades ditas de esquerda ou de direita] se sobrepõe aos princípios da Democracia e da República e quando o que se diz hoje se desdiz amanhã? v) a mentira e a manipulação da informação exponenciam o ódio e o ódio se torna uma atração para a conquista de votos e apoios?

O caso venezuelano é mais um exemplo do caudilhismo autoritário sul-americano. Vários opinion makers / influencers referenciam-no como sendo um regime de esquerda porque Maduro assim se define, o que só remete para a incompreensão ou má intenção. A autodefinição de um conceito não significa a verdade. Assim, considerar Maduro como político de esquerda [ou o Partido Comunista Chinês como comunista] é um erro que só favorece a ascensão e os créditos à direita! A Venezuela vive uma tragédia que se abate sobre o povo levando a que mais de 7,1 milhões de pessoas tenham deixado ou fugido do país… Um país “rico” com as maiores reservas de petróleo do mundo

Aqui por perto, o país da esperança, “Liberté, Égalité, Fraternité” não nos faz refletir?

Compreende-se melhor o percurso francês com um olhar ao artigo da professora universitária, em Paris, a portuguesa Cristina Semblano, intitulado “O macronismo, antecâmara do fascismo”, jornal Público.
“Emmanuel Macron, promulgou em 2016 a mais neoliberal Lei do Trabalho do pós-guerra – dita El-Khomri –, sem votação no parlamento, fazendo ouvidos moucos à oposição e ao clamor da rua”. Declarou “o estado de emergência em França, cujas leis de excepção, a coberto da protecção da população contra as ameaças terroristas, foram utilizadas para restringir direitos fundamentais, entre os quais o direito de manifestação. E foi o autor da proposta, cara à extrema-direita, de retirada da nacionalidade francesa a cidadãos binacionais mesmo nascidos em França”.

Foi o mesmo Macron que, perante a esmagadora derrota do seu partido nas eleições europeias e a vitória da extrema-direita, decidiu dissolver o parlamento e convocar eleições gerais. Macron julgava que o seu partido ia voltar a ser o refúgio de todos quantos queriam impedir a vitória do partido de Marine Le Pen. Ao invés, a esquerda uniu-se construiu um programa alternativo ao neoliberalismo radical e foi a coligação de esquerda – Nova Frente Popular (NFP) – quem venceu as eleições e teve o maior número de deputados, 182.

Nestas eleições a NFP teve papel destacado liderando a concentração de apoios com a desistência de candidatos seus para outros em melhor posição – nomeadamente apoiantes de Macron – possibilitando a estes conseguirem o segundo lugar, com 168 deputados, fazendo a extrema-direita passar de mais votado [na primeira volta] para terceiro lugar com 143 eleitos.

E qual a “paga” agora de Macron? Diaboliza a esquerda depois de ter precisado e usado o apoio desta para conseguir eleger os candidatos “macronistas”, ataca-a comparando-a à extrema direita, recusa um governo de esquerda e tenta formar um governo alheio aos resultados eleitorais. Democracia, para que te quero?!

Tal como aconteceu em Portugal, Espanha, (…) Macron devia chamar a coligação mais votada a indicar o primeiro-ministro e formar governo; se depois consegue apoio parlamentar ou tem o governo viabilizado já é a fase seguinte.

A exigência de respeito pela Democracia tem de valer para todos, na Europa ou fora dela!

Vítor Franco

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A nossa terra precisa de incentivos positivos

Imagem Depositphotos

(Para ouvir em podcast clique aqui)

O envolvimento das comunidades na construção das opções e decisões para a sua terra precisa de um incentivo positivo.

É recorrente falar-se sobre alheamento, desinteresse ou passividade face às necessidades que as pessoas e a vivência na pólis reclamam. Em termos correntes, dir-se-á que a população não quer saber de política! No entanto, continuam os atropelamentos na cidade, o lixo persiste entremeado com arbustos, as fezes de animais cujos donos ou donas carecem de educação, as descargas ilegais de lixo nas barreiras da cidade, o desrespeito pelas regras de condução e estacionamento [ao ponto de impedirem a passagem de um peão e muito menos de um carrinho de bebé], o desrespeito pelo património, a ausência popular nas assembleias municipais ou de freguesia…. Poderia juntar muitos exemplos!

Acresce, Santarém está a reforçar o “seu” papel de lugar dormitório de Lisboa com a fuga da capital de gente que não consegue suportar os preços da habitação. Esse fator convoca a reflexão sobre as consequências de uma cidade dormitório.

Posto isto, há dois caminhos que se bifurcam em duas linhas de orientação nas autarquias:

Uma procura aplicar a sua linha política apresento-a como a melhor, a gestão eficaz, a mais competente, a que melhor serve a comunidade, a que é – no fundo – a de argumentário mais fácil confortável e fácil para um autarca fazer. Porquê? Porque essa linha política assenta numa decisão unicamente de cima para baixo, ainda que seja sustentada por vitória eleitoral. Essa é a linha seguida no nosso concelho, em particular, pelas presidências da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia da Cidade.
De modo distinto, a linha que procura o exercício da cidadania, ter cidadãos e cidadãs que pensam pela sua própria cabeça, que fomenta o gosto pela terra onde se vive, a ação cívica das pessoas em prol da comunidade [consequentemente de si próprias em ação solidária e construtiva, não de um egoísmo e individualismo que critica tudo e todos a partir do seu sofá – mas nada faz], pessoas com espírito crítico que são parte da solução e não parte do problema.

O concelho de Santarém, em particular a freguesia da Cidade [que conheço muito bem], tem excelentes exemplos de cidadania e de voluntariado: é o caso das associações culturais e recreativas, clubes desportivos, comissões de moradores, comissões de festas, grupos de dadores de sangue (…) compostas por dirigentes que dão o melhor de si para um bem comum. Essa energia positiva é fundamental para Santarém ter vida própria, precisa de ser mais apoiada pelos poderes autárquicos.

Cabe perguntar: queremos que a cidadania seja amorfa, composta de pessoas que se limitam a consumir as decisões dos poderes autárquicos?

A minha linha de orientação incentiva as pessoas que criam jardins como o fazem na Rua Dr. António Maria Galhordas ou na Prof. Manuel Bernardo das Neves, que fazem limpeza de chafarizes e de ruas como fez o movimento “No coração da cidade – Santarém”, que proteja o meio ambiente ou a cultura da sua terra como fazem o movimento Movimento Ecologista Vale de Santarém ou a sua identidade como a Associação Cultural Vale de Santarém – Identidade e Memória, ou que proteja os animais incluindo os errantes abandonados por seus donos, entre muitos e tantos outros bons exemplos.

Aqui chegados, há que refletir porquê a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia da Cidade não colocaram em prática os Orçamentos Participativos aprovados respetivamente em 2021 na Assembleia Municipal e em 2020 na Assembleia de Freguesia da Cidade. É que os O.P.s são ferramentas provadas que fomentam o gosto, a responsabilidade e o compromisso com a terra onde se vive.

A nossa terra precisa de incentivos cívicos positivos, os orçamentos participativos são um exemplo.

Vítor Franco

 

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Toulouse, a cidade rosa


Esta “coisa” de escrever em tempos de férias… Não dá muito para falar de coisas sérias, se bem que as férias pagas tenham sido uma grande conquista dos trabalhadores.

Na falta de novas grandes viagens em bicicleta, não levais a mal que “faça render o peixe”, até porque abundaram as lesões e não abundou aquilo com que se compram os melões… Enfim, acrimónias minhas…

A pedido de várias famílias [conversa para fingir que foi muita gente] venho partilhar mais algumas experiências do Canal du Midi.

– Que chato! Já estou a ouvir! Bem, direi só umas breves palavras sobre Toulouse – a linda cidade rosa que me “ficou no goto” –, onde ganhei amigos franceses também apaixonados por esta “maluqueira” de pedalar kms e kms e demorar um dia a fazer o que num carro se faz em uma hora… Vamos à chegada à cidade rosa.

A chegada ao aeroporto da cidade foi fácil [há ligações lowcost], descobrir a caixa com a minha bicicleta é que não. O translator lá foi ajudando, “monsieur, mon vélo n'est pas venu?!”.  Lá eu ia insistindo com os funcionários que estavam na entrega das embalagens fora de formato. Ao princípio não me ligaram muito, então eu lancei o meu truque secreto, fiz voz mais grave, e, francofonamente, arranhei qualquer coisa a parecer: “eu sou português, venho para Toulouse andar de bicicleta e agora a bicicleta não aparece, não pode ser”!

Vocês podem não acreditar, mas a afirmação “eu sou português” é ótima para gerar simpatia, ou então para parecer um “atrapalhado”, o que é certo é que já me livrei de multas por não validar bilhetes de comboio, fui perdoado pela polícia por ter entrado em zonas proibidas [aqui tive que responder ao polícia que indagou porquê eu ter passado as fitas sinalizadoras: “Cristiano Ronaldo, sem me rir!], outras mais…

Bem, finalmente um funcionário decide ir procurar a minha caixa de bicicleta, e, por fim, lá apareceu com ela, estava num elevador disse; ele não sabia explicar porquê e eu quase não o percebia, ficámos empatados. Talvez se eu tivesse arranhado em occitano ele entendesse; eu também levava essa cábula linguística, ciclista prevenido é como pneu com líquido antifuro…

Pronto, passei à fase seguinte, montar a bicicleta: a montagem foi “supervisionada” por trabalhadores do aeroporto que iam assistindo divertidos e fumando cigarros. Tirar as proteções, colocar os ferros da tenda por baixo do quadro, cada bolsa em seu sítio, selim regulado na altura certa, volante e ângulo dos manípulos dos travões e mudanças, pedais, etc e tais…

No fim de colocar todo o lixo nos devidos recetores pedi informações aos fumadores de como chegar à cidade… Simples, “via metro de superfície, barato e bom”, ok, porreiro, chegado ao metro, lá tive de ir pedir nova ajuda” para tirar o bilhete correto a outro “descendente de Junot”. Com esta conversa toda e ainda não falei da cidade…

Saí no Palácio de Justiça e de lá dei a volta pelo centro da cidade rosa, tendo como objetivo o posto de turismo situado na belíssima torre da Capitólio.

Como é costume começou a chuviscar, S. Pedro adora receber-me assim. Num café fiquei à conversa com um casal que se interessou pela bicicleta e Portugal. Chega-se o tempo de me aproximar da casa do casal até então desconhecido e amigo warmshower... Ainda deu para espreitar a Cité de l'espace [visitei esta atração no dia seguinte] e fotografei a réplica [julgo] do Ariane.

O jovem casal, que me recebeu em sua casa, tinha feito a rota da seda em bicicleta; claro que a primeira noite foi uma maravilha de receber tão belas vivências e tão marcadas experiências.

No dia seguinte visitei a cidade. A primeira evidência que salta à vista é o excelente trabalho de ligação e usufruto popular ao rio Garona e ao canal du Midi. As pessoas usufruem de margens tratadas e frondosas, há ciclovias, atos culturais, património (…) vida! Mais uma lição para Santarém, “fui dizendo aos meus botões”.

Não vos maço com mais descrições [sugiro verem as ligações nas palavras azuis], realço ainda o centro histórico, o Museu da Resistência e da Deportação, o Convento dos Jacobins, a Catedral de Saint-Étienne e a Basílica de St. Sernin, património mundial.

Fico satisfeito se vos agucei o apetite para visitar a linda Toulouse. Se a curiosidade vos impeliu a fazer o belo canal du Midi em bicicleta, ide amigos, ide! Se precisarem de informações para planearem a vossa viagem cá estarei.

Vítor Franco

Poderá também ler e ouvir:

https://maisribatejo.pt/2021/11/06/abc-de-uma-viagem-em-bicicleta-pelo-canal-du-midi/

https://maisribatejo.pt/2021/10/02/cronica-visual-do-canal-do-midi-em-franca-a-ecovia-do-rio-tejo-video-e-podcast/

https://maisribatejo.pt/2024/08/13/cronicas-de-viagem-em-bicicleta-canal-du-midi-por-vitor-franco-c-podcast/

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Pós-verdade é anti-democracia, a caminho da idade média!

Créditos de imagem: em-rede.com 

Os tempos que correm trazem-nos desafios inesperados, que poderiam convocar a nossa reflexão. A comunicação de ideias e mensagens em “pós-verdade” trouxe renovados apelos ao ódio agindo em irresponsabilidade quase total perante o respeito para com pessoas e/ou comunidades. O ser humano transforma-se vulgarmente em carneiro que segue o rebanho e este segue o pastor.

Partilho este olhar:

A pós-verdade é a aceitação de uma informação por um indivíduo ou grupo de indivíduos, que presumem a legitimidade desta informação por razões pessoais, sejam preferências políticas, crenças religiosas, bagagem cultural, etc. Assim, a pós-verdade não implica necessariamente em uma mentira (tendo em vista que a informação não verificada pode ser verdadeira), mas sempre implica em uma negligência com relação a verdade.”s partiu da informação – falsa – de que o assassino das três crianças era um refugiado. Os pais sim, eram

A recente onda de violência, desencadeada pela extrema-direita inglesa, contra pessoas imigrantes e refugiada imigrantes, o jovem é simplesmente um inglês. Para os incendiários da violência basta o jovem ser negro para ser sinónimo de imigrante ou refugiado. Ora se um jovem é negro, ou refugiado, ou imigrante, o adjetivo de criminoso transmite-se a toda a comunidade e toda esta está a ser atacada.

Estas situações não são novas no mundo e muito menos em Portugal. Vejamos a matança de judeus, em Lisboa, na páscoa de 1506. Cito da Wikipédia: “historiografia situa o início da matança no Convento de São Domingos de Lisboa, no dia 19 de abril de 1506, um domingo, quando os fiéis rezavam pelo fim da seca e da peste que grassavam em Portugal, e alguém jurou ter visto no altar o rosto de Cristo iluminado — fenómeno que, para os católicos presentes, só poderia ser interpretado como uma mensagem de misericórdia do Messias — um milagre. Um cristão-novo que também participava da missa tentou explicar que esse milagre era apenas o reflexo de uma luz, mas foi calado pela multidão, que o espancou até à morte”. A partir daí todos os judeus passaram a ser os hereges culpados da peste e mais de 4000 foram assassinados em apenas três dias por multidões em fúria.

Outro exemplo, bem contemporâneo, acontece entre nós quando um dirigente político ataca toda a comunidade cigana apelidando todas essas pessoas de ladrões e afins. O mesmo faz com os imigrantes acusando-os de viverem à nossa custa [não acusa os banqueiros] – sabendo perfeitamente que está a mentir –, pois os imigrantes dão lucro ao Estado Português e estão a contribuir com mais de mil e quinhentos milhões de euros para a segurança social, ajudando assim a pagar as reformas e os apoios na saúde de todos nós.

A recente polémica acusando a pugilista argelina Imane Khelif de ser trans e disputar um combate em posição mais favorável à outra atleta feminina trouxe à opinião pública uma variedade inaudita de disparates. Dirigentes partidários e de países, deputados [incluindo Rita Matias do Chega], uma infinidade de gente que se tornou instantaneamente especialista em ADN, cromossomas X e Y, elegibilidade de género, testosterona, regras internacionais de boxe, (…), usaram a imprensa e as redes sociais para afirmar a sua ira contra uma mulher trans, afirmando ser um atentado contra as mulheres e a propagação da ideologia de género” até nas olimpíadas. Tal ira, nos e nas emissoras de opinião, tem três coisas em comum: i) pertencem ao lado extremista da direita, ii) nada fazem contra a violência doméstica que todos os anos vitimam dezenas de mulheres em Portugal e muitas milhares no mundo e iii) acusam uma pretensa “ideologia de género” para carrear ódio contra a diversidade humana, os direitos das próprias mulheres e a nossa própria democracia.

Por fim, sem qualquer assomo de petulância, será positivo que pensemos pela nossa própria cabeça, que construamos a nossa opinião fundamentando-a, que debatamos em respeito e em solidariedade – sem ódios! A pós-verdade, transformada em mentira, só cria ódio e transforma pessoas em carneiros!

Vítor Franco

sexta-feira, 26 de julho de 2024

As mãos no pote do dinheiro público

311 empresas com auxílios de Estado, considerados ilegais, no valor de 833 milhões de euros. Considerados ilegais por quem? Pelo Tribunal de Justiça da União Europeia, isto porque o Estado Português aplicou-lhes “taxas de IRC reduzidas [de 3%, 4% e 5%] sem controlar se as empresas cumpriam as condições necessárias”. Notícia de 05/07/2024, Jornal Público.

“Cruzamento de dados descobre 16 mil pessoas a enganar o Estado”… "o valor dos pagamentos detetados que não foram declarados pelos contribuintes para efeitos de IVA e de IRC ascende a mais de 400 milhões de euros". Notícia de 04/12/2023, Jornal Expresso.

Estas duas notícias são apenas algumas das muitas que aqui se poderiam partilhar. Das milionárias isenções de imposto de selo, das benesses ainda muito mais milionárias no abatimento do IRC das empresas a partir da Lei do Orçamento de Estado – beneficiando grandes grupos económicos que (ab)usam da “engenharia financeira” em prejuízo da comunidade e das pequenas empresas (...), há um sem número de facilidades que descapitalizam o Estado Português.

Dir-se-á que são as regras de um “sistema” que se quer competitivo fiscalmente, face à concorrência de países como a Irlanda e outros países com paraísos fiscais. Ledo engano. A dogmática asserção, sem comprovação real, em rigor distorce o bem comum, desequilibra as contas públicas e fragiliza o Estado e as suas responsabilidades para com as e os seus cidadãos.

O “fio de prumo” deste intento é coerente com o argumentário dos liberais sempre exigindo redução de impostos em desprimor da sua justa e correta aplicação nos serviços públicos de saúde e educação.

O paradigma consubstanciado no lema “menos Estado, melhor Estado” provou a sua iniquidade castigando os serviços públicos, os seus funcionários e quem necessita dos serviços próprios e necessários a um país moderno. Este paradigma faliu – há que referenciar, sem temor!

O referido lema retornou ao centro do poder agora com um argumento auxiliar que se tornou o principal: “se o serviço público não é capaz, reforçam-se os serviços públicos contratualizando no privado”. Parece lógico e de bom senso, parece, mas desconvoca a necessidade de melhoria desses mesmos serviços públicos transformando estes em plataforma de negócio do privado. Um dos exemplos mais “caricatos” acontece nas urgências dos hospitais com os médicos de empresas privadas a ganharem em três dias o que um médico de carreira pública ganha num mês.

O lema de “menos Estado” tem consequência dura para muitas pessoas. Vejam, só este exemplo: em quantos serviços públicos se fazem endoscopias, ecografias às partes moles ou colonoscopias? Agora, vejam quanto custam no privado!

Querem mais exemplos?

Vítor Franco

domingo, 30 de junho de 2024

Há democracia com tantas pessoas sem abrigo?

Foto da Av. 5 de outubro, Lisboa, tirada a 25 de junho de 2024

Estávamos em convívio na sede da SRO, em Santarém. Um dos atletas da nossa equipa, Desafios Positivos D+, tinha feito anos e, como é habitual, juntámo-nos para festejar.

Cerca das 21h um senhor desconhecido entra na sede e dirige-se à sala de convívio. Perguntámos se precisava de alguma coisa e que desejava.

– Tenho fome, disse.

– Sem problema, disse-lhe. Mandei-o sentar-se e servi-lhe dois pratos da nossa comida.

Puxei conversa, indaguei de onde vinha e porque estava por cá. Disse-me que é português e foi emigrante. Regressado a Portugal a vida não lhe terá corrido bem. Vagueava de terra em terra procurando a sorte que lhe tinha fugido. Estava também sem abrigo, considerava-se um refugiado no seu próprio país o que ele próprio era uma revolta pois dizia ser “um homem de Deus”.

Enquanto comia discorreu sobre os outros pobres, ou outros sem abrigo que considerava uns privilegiados até porque dormiam em albergues ou tinham apoios sociais. Criticou os horários dos albergues noturnos que obrigam à saída matinal e a sua disciplina. Falou da prostituição entre pessoas sem abrigo, em troca de algum para a droga… Recordei os fins de 2007, início de 2008, quando participei no Porto numa equipa que elaborou um vasto trabalho de campo e que teve fim feliz em vários projetos-lei do Bloco de Esquerda e no “Livro Negro, sobre a pobreza no distrito do Porto”, cuja capa é precisamente o Albergue Noturno do Porto. Recordei-me da visita a este Albergue e da dedicação que as e os funcionários dedicavam a estas pessoas. Alguns dos problemas dos sem abrigo eram a perda da documentação, a ausência de morada fixa para ter eficaz acesso aos subsídios e apoios sociais ou – imagine – a burla que alguns empresários lhes faziam que, em troca de parcos euros, usavam a identidade dos sem abrigo para negócios escuros; depois, as pessoas sem abrigo eram vítimas de problemas judiciais e acusados de crimes que em todo desconheciam.

Voltando ao “refugiado”, para a sua dormida, nessa noite, sugeri que contatasse os Bombeiros Voluntários, talvez lhe pudessem dar algumas indicações. No fim de comer saiu, sem mais… Regressei ao convívio.

Este episódio fez-me lembrar outras situações de pessoas sem abrigo que tenho visto a dormir em Santarém. Confesso que é das situações que mais me incomoda, em particular se forem idosos, talvez por isso volto ao tema neste jornal. Já vi pessoas a dormir em entradas de bancos onde se situa o multibanco, em recantos mais abrigados de prédios e até em casas abandonadas. Tenho a sensação de que este problema se tem vindo a agravar, transportando consigo as restantes exclusões sociais.

Também me incomoda que a Assembleia Municipal tenha recusado a proposta da deputada municipal Ana Eleutério para melhorar as condições em que se dá apoio municipal ao arrendamento. Em rigor, “é praticamente inalcançável para quem possa necessitar de recorrer ao mesmo”. O apoio municipal existe para quem tenha até 509 € de rendimento mensal e more no concelho há mais de três anos, ou seja, é um subsídio dado a quase ninguém. Incomoda-me que nenhuma das forças que tem vereadores da Câmara tenha votado a favor! Enfim, cada eleito é livre de votar como quer… 
Vítor Franco
(Publicado no Jornal Mais Ribatejo, veja aqui)

domingo, 16 de junho de 2024

O homem do chafariz

Chafariz da Praça da Armada - 1661, créditos da Câmara Municipal de Lisboa.

Caminho pela rua, sigo tranquilo e pensativo, tinha estado com colegas que trabalham por turnos rotativos…. Dormir na vez das horas que o ditame laboral impõe, ver filhos e filhas quando dormem, deitar na cama ainda quente de pessoa já ausente…

São umas dez horas da manhã, tínhamos estado numa esplanada a tomar café, os colegas tinham trabalhado de noite, a cafeína ajudava, mas as palavras não poderiam ser longas que os olhos tendiam a fechar-se. Tinha tomado notas para o sindicato apresentar à empresa, pensativo recordo os meus tempos de onze anos em turnos, coisas do passado, quando começamos a envelhecer estamos sempre a falar do passado…

Caminho, pensativo…

Ao chegar ao chafariz da Praça da Armada vejo um homem deitado em cima de um papelão, tapado com um cobertor, resguardado do vento pelos lados curvos das guardas laterais. Não parece ter frio, quiçá o calcário lioz lhe devolve o calor que o vida lhe nega. Deve ter uns 50 anos, parece bem apresentável, paro a olhar para ele… O homem sente a minha presença e levanta a cabeça como que a indagar o que queria eu dele… Que poderia eu dizer?

Sabe-se que há gente a dormir na rua que, embora trabalhe, não consegue pagar uma renda, tomam banho e guardam roupa no lugar onde vendem barato a sua força de trabalho – tão barato que lhe rouba a dignidade de um repouso humano…

Que poderia eu dizer ao homem sem cama que dormia no chafariz sem água? O chafariz está datado de 1845, a dignidade desta pessoa também parece assim estar, 1845… Desta? Não, de tantas pessoas que dormem nas ruas nesta cidade onde são muitas mais as camas vagas para repouso de turistas… Camas sem pessoas e pessoas sem cama…

O chafariz não tem água, não tem peixes, registado com o número dez, regista também o abandono da magnífica rede de distribuição de água em chafarizes que acompanhou outras obras magníficas como o aqueduto… Transeuntes passam por ali e ignoram o chafariz sem água, ignoram também o homem sem cama que lá se acolheu, alguns turistas param e tiram fotos a jeito de não registar o sem abrigo que fez do monumento o seu abrigo sem água.

Que poderia eu dizer ao homem que me olha? Não sei o que lhe dizer, aceno a cabeça em jeito de bom dia, recomeço o caminho, pensativo…

Vítor Franco
(publicado no Jornal O Ribatejo, veja aqui)

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Há tanto abril para construir!

Caminhava a passos algo incertos, o seu corpo parecia instável, alto e magro, a fazer-me lembrar o bom gigante Torres que jogou no Benfica, quase esquelético, vem direito a mim.
– Senhor, senhor, preciso que me ajude, diz-me.
– Bom dia, diga o que se passa, indago eu.
Procura algo nos bolsos das calças, de lá para os de um casaco velho, mas limpo, encontra no bolso de dentro, parecia um spray para a asma.
– Senhor, preciso que vá comigo à farmácia pedir este medicamento… Sabe, senhor, eu não lhe quero pedir dinheiro, o senhor paga na farmácia, com o protocolo da Misericórdia de Lisboa é pouco…
Nunca tal tinha tido tal abordagem… O “Torres” continuou.
– Senhor não é preciso dar-me dinheiro, senhor eu preciso deste medicamento…
Disse-lhe que ia com ele à farmácia e pagaria a parte não comparticipada do medicamento.
– Para onde é a farmácia?
– Senhor, é ao pé do Egas Moniz, vamos senhor…
– Amigo, eu vou em sentido contrário, temos já ali uma farmácia… Vamos a esta.
Faz uma cara de angústia…
– Senhor, senhor, essa não tem protocolo, senhor eu não quero que me dê dinheiro, vá comigo senhor…
– Quanto lhe custa o medicamento se você for à farmácia que diz?
– É muito senhor, são quatro euros e meio…
Olhei para o “Torres”, às tantas doía-me a consciência de não ir com ele, às tantas era mais uma canção de pedir dinheiro para a sua dose de droga… Voltei a olhá-lo com atenção…
– Senhor, senhor, venha comigo…
Puxei da minha carteira e tirei uma nota de cinco euros.
– Eu tenho de seguir em frente, disse-lhe. Leve a nota e compre o medicamento.
Cada um seguiu o seu caminho, parei, olhei para trás, lá ia ele em passo apressado, inseguro… Lembrei-me da canção do Rui Veloso…
“… Gingando pela rua/ Ao som do Lou Reed/ Sempre na sua/ Sempre cheio de speed/ Segue o seu caminho
Com merda na algibeira/ O Chico Fininho/ O freak da cantareira
Chico Fininho…”
Há tanta doença por reparar, tanta miséria por acabar, em tanta gente que vegeta na vida ou vive na desesperança, em gente que deixou de ter força de trabalho para vender…
Há tanto abril para construir! É o nosso objetivo, construir abril! 
Vítor Franco
(Publicado no Jornal Mais Ribatejo, veja aqui)

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Pereiro, onde as casas morrem com as pessoas!


O bairro do Pereiro foi o da minha criação, assim diria a minha mãe.

A senhora Alice tinha uma mercearia no Largo dos Capuchos, mais conhecido como o Largo do cemitério. De lá, trabalhando sem descanso, criou sozinha os três filhos.

O bairro era um lugar cheio de vida, cheio de crianças e jovens. O Largo do cemitério era o centro de todas as vivências. Era lá que jogávamos à apanhada, ao lenço, (…) à bola; de lá, por vezes, tínhamos de fugir à polícia quando o encarregado do cemitério a chamava. Queixava-se ele, e com talvez alguma razão, que a bola quando chutada por alto e entrada no cemitério partia objetos. Uma vez por outra tivemos de fugir para dentro do cemitério mesmo de noite, era uma aventura nos tempos da ditadura…

O 25 de abril teve um enorme impacto no bairro. Em primeiro lugar ele trouxe um aumento do bem-estar e do poder de compra das pessoas, com consequente benefício para a mercearia da Alice. A minha mãe passou a ir muito mais vezes aos armazéns numa velha carrinha Opel Kadett e eu passei a trabalhar mais na mercearia, o que era um problema sério para mim.

Não raras vezes a rapaziada vinha chamar-me, “Vítor, anda jogar à bola”… Grande dilema, quase sempre a bola ganhava e a mercearia ficava ao cuidado do freguês que chegasse. Aí, “Vítor, anda aviar-me”, lá ía eu… Depois voltava à bola… O problema é que a Alice detestava que a mercearia ficasse à vigilância popular, vai daí a rasoira de madeira do feijão, do grão ou do milho fazia serviço alheio ao seu fim de fabrico… Costumamos dizer bons tempos não é?

O bairro tem uma estrutura urbanística diferente do planalto, ruas retilíneas com perpendiculares, nele instaurou-se um acampamento romano como muito bem explica José Augusto Rodrigues em vídeo de O Ribatejo [veja aqui]. O bairro do Pereiro ter-lhe-á tomado nome por ser lugar de macieiras de peros, não se sabe…

A Porta de Valada já não existe, mas, a estrada para o Outeiro da Forca era a saída para as barreiras onde cheguei a apanhar pintassilgos e carrascos para a fogueira das festas de S. João. Lugares de memória…

É por esses lugares que continuo a passar, pelo menos quando faço os meus treinos de corrida. O Largo do cemitério foi alcatroado e agora tem muito mais carros do que crianças. A mercearia do Rato e da Alice também são recordações… É com alguma tristeza que se vê a queda de casas e de gentes.

Recentemente foi necessário cortar uma estrada por mais uma derrocada de um lar abandonado à sua ruína. No Pereiro as casas morrem com as pessoas… O Pereiro como a judiaria, a mouraria, outros lugares que se escapam entre os dedos da memória e da vida…

Seria interessante reavivar a memória das vivências de Santarém, a presença judaica e a perseguição aos judeus, ou os 400 anos de presença islâmica cuja mesquita estaria onde é hoje a Igreja de Santa Maria das Alcáçovas. É que a nossa identidade, dita de ribatejana, é uma agregação de povos e culturas. Mas isso faz-se com políticas públicas e uma gestão municipal e da freguesia que tragam a diversidade do passado ao presente.

Tudo isto por lembrança do Pereiro, onde as casas morrem com as pessoas!

Vítor Franco

segunda-feira, 18 de março de 2024

Crónica de uma corrida



A caminhada ou a corrida na natureza propiciam momentos prazerosos e úteis à saúde física e psíquica. O trail, palavra inglesa que se normalizou no mundo para significar prática em trilho, é também uma prática em que as e os atletas competem de forma muito mais saudável. Vejamos.

O contato com a natureza induz a necessidade da sua proteção, cria a sensibilidade para a sua defesa e cria uma relação quase biunívoca na qual o atleta precisa da natureza para a sua prática desportiva e a natureza precisa do atleta para a sua preservação. Deixar lixo pelos trilhos significa a eliminação do atleta.

Recentemente, a equipa a que pertenço, os Desafios Positivos D+, organizou uma recolha de lixo nas encostas e acessos à cidade, uma atividade também conhecida pelo anglicismo de plogingg. Infelizmente foram dezenas os sacos de lixo que enchemos, prova de uma população que não se respeita a si própria e de uma autarquia que prima pela debilidade nesse trabalho.

No trail a competição é muito mais saudável. Se alguém cai e precisa de ajuda, alguém vai ajudar de imediato, se alguém precisa de água ou alimentação partilha-se, se alguém se engana no caminho [como me aconteceu neste domingo por duas vezes] alguém vai a correr chamando quem se enganou. Neste domingo eu e as pessoas que não me deixaram ir por trilhos errados passámos a meta de mãos dadas!

No trail as corridas acabam em almoço convívio e várias vezes em baile. A festa suplanta o cansaço e as pernas ganham subitamente novas energias.

As pessoas participam sabendo que, regra geral, não têm prémios monetários. O prémio mais pretendido é a medalha de finisher, a pessoa conseguiu terminar. Mesmo os prémios de pódio são normalmente simbólicos em pequenas medalhas de madeira.

No caso da prova do passado sábado, o Corvus Trail foi uma ótima organização da equipa COA – Clube de Orientação e Aventura. Os trilhos imbricaram-se nas matas, bordejaram rios e ribeiras, o som da água e dos pássaros saudavam-nos e diminuíram o nosso esforço. Milhares de belíssimas flores de esteva “fugiam” dos eucaliptos e partilharam connosco as encostas semiáridas. O branco, o roxo, o amarelo e o verde pintaram encostas, aqui e ali ainda surgindo o negro de restos rasteiros de árvores calcinadas.

O equinócio da primavera está à porta, que seja um incentivo para caminhar com os Desafios Positivos. Todas as quintas, pelas 19h30, partimos da nossa sede [os D+ são uma equipa da SRO Santarém] para caminhar. A natureza espera por si!

Vítor Franco


sexta-feira, 15 de março de 2024

Vencer o medo!


A história começa com um telefonema…

– Está, Vítor?

– Sim, olá amigo…

– Tenho uma proposta a fazer-te, podemos tomar um café?

– Claro, [café marcado, nós portugueses fazemos quase tudo à mesa] lá estarei.

Chegado ao dia, lá estou. Cumprimentos de bons amigos e chegámos ao tema:

– A 17 de março de 2014 faz 100 anos que foi criada a primeira central sindical portuguesa, a União Operária Nacional, e foi aqui em Tomar, diz-me…

Como foi possível eu ter-me esquecido, pensei. Bem, afinal todas as pessoas e entidades se esqueceram: a CGTP, a UGT, a Câmara Municipal de Tomar (…), todas as entidades!

E ele explica, faz-me o contexto histórico, dá-me conta dos protagonistas e, acima de tudo, da vontade de vencer o medo da opressão e da prisão. Vencer o medo, pensei, afinal como está atual… O medo é a primeira arma de opressão, um trabalhador com medo não luta por uma vida digna, aquieta-se aos ditames, treme perante a precariedade, traz a ansiedade do fim do mês com ele… O amigo tinha razão, havia que agir.

Juntámos um grupo de sindicalistas da região e fizemos um plano de comemorações. Criámos páginas “Vencer o medo” no Facebook e no wordpress, pedimos a cedência de instalações à Câmara, organizámos debates, exposições, aliámos a história às atuais lutas laborais e à mensagem: Vencer o medo. Criámos um manifesto que a dado passo dizia:

“A fundação da primeira central foi um passo positivo que juntou as forças do mundo do trabalho numa organização comum. Foi a coragem de ir à luta que conseguiu vitórias na redução do horário de trabalho para as 8 horas diárias, na criação de seguros sociais ou bairros de habitação social. A UON dinamizou o protesto contra os especuladores e açambarcadores de bens, pela defesa da paz e contra a entrada de Portugal na 1ª guerra mundial.

É admirável a coragem daqueles e daquelas que venceram o medo, as prisões, os despedimentos arbitrários, a fome e a miséria para levantar a luta pelos direitos dos trabalhadores e da paz.”

Este ano a comemoração é pelos 110 anos, dez anos depois do centenário quase nada mudou. O medo continua a assolar os imigrantes nos campos do Ribatejo e Alentejo, os jovens que não conseguem um contrato a efetivo, os efetivos com medo de não serem aumentados no seu salário, os que tem medo de fazer greve, os que tem medo de ter medo…


Cinquenta anos depois do dia libertador o medo traz consigo a herança da ditadura… No medo o fraco ataca o fraco, ataca os imigrantes ou as pessoas LGBT, ou as negras, ou as ciganas, ou as islâmicas, ou as judaicas (…), ataca sempre os fracos vendo neles adversários, os de baixo contra os de baixo, como se vive-se numa guerra surda. O medo tolha o pensamento e aprofunda a alienação.

Há 10 escrevemos:

Cem anos depois a pobreza alastra pela população. Os especuladores são agora os da finança e da banca que dizima os recursos do país e os açambarcadores de riquezas multimilionárias crescem na explosão daqueles que só conseguem comer através dos bancos alimentares ou das cantinas sociais.

Talvez tenha sido na UON que Vinicius de Moraes se inspirou para escrever o poema “O operário em construção”…

“… E foi assim que o operário 
Do edifício em construção 
Que sempre dizia sim 
Começou a dizer não. 
E aprendeu a notar coisas 
A que não dava atenção…

110 anos depois continuamos a ter necessidade de dizer não!

Vítor Franco




sábado, 12 de agosto de 2023

Ruas cor de tijolo ou cor de sangue?




Percorro as ruas coloridas pelo tijolo “de burro”. A cidade, chamada de cor-de-rosa, tomada de sol ardente, tem cantos que surpreendem – alguns dos tempos da construção medieval. Aqui e ali surgem placas evocativas de gentes e acontecimentos passados.

A cidade e a região da Occitânia viveram talvez aquele que foi um dos primeiros massacres da história da Europa, o perpetuado pelas cruzadas da igreja católica romana sobre o povo cátaro. Como nem todas as pessoas eram do culto cátaro foi perguntado ao representante do Papa, Arnald-Amaury, como distinguir os hereges dos católicos leais e devotos. A resposta foi brutal: “Matai todos eles sem distinção de idades, sejam homens ou mulheres, Deus reconhecerá os Seus.”

Os tempos correram, dominada a região, conquistados os campos férteis e as passagens estratégicas dos Pirenéus, domesticado o povo da Occitânia e a sua língua…

A barbárie ainda haveria de revisitar a França e Toulouse em particular.

Invasão nazi da França, ocupação, assassinatos em massa, perseguições, governo traidor de Vichy…

Percorro as ruas…

Tomo o caminho do Museu da Resistência e da Deportação pelo magnífico Jardim das Plantas [imagens]. As obras da nova linha do metro obrigam a pequeno desvio.

Um pequeno monumento de colunas surge. Aparentemente insignificante uma pequena placa conta outra barbárie: a deportação de crianças judias para os campos de concentração, onde morreriam.

Percorro os nomes e as idades, uma das crianças só tinha três meses… Era Halpern, ela só tinha três meses; Elizabeth tinha seis meses; Gelenrten tinha dez meses… Várias crianças tinham um ano… Quarenta e oito crianças foram deportadas de Toulouse para os campos da morte…


A barbárie repetiu-se e poderá repetir-se! A barbárie tem sempre raízes no ódio e no racismo, seja contra quem for, e poderá chegar de novo!

A placa à entrada do Museu da Resistência e Deportação diz “A palavra resistir deve sempre ser conjugada no presente“.

Vítor Franco

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Uma noite em Lisboa



 
“A noite ia alta e o cais estava quase deserto. Já ali estava há algum tempo, quando reparei num homem que passeava ao acaso de um lado para o outro. Por fim parou e deixou-se ficar, olhando fixamente o barco, tal como eu… Não tardou que ouvisse passos atrás de mim…”.

A sugestão de leitura, que aqui partilho, foi escolha de debate num grupo literário. Não faço parte desse grupo, mas fui estimulado a vasculhar as entranhas dessa noite. Assim fiz. Fui à Biblioteca Municipal Braamcamp Freire e requisitei o livro de Erich Maria Remarque.

Nessa noite de 1942, em plena segunda guerra mundial, dois emigrantes alemães encenam uma estranha negociação. Um deles, um judeu perseguido pelo nazismo, conta uma história impressionante [impressionante é pouco] de resiliência e de amor. O outro ouve, a sua tarefa é só ouvir, a sua recompensa são dois bilhetes naquele barco que vai seguir para Nova York.

A narrativa do livro é aditiva, se assim se pode dizer. É quase impossível parar de ler, ou seja, parar de ouvir Schwarz – um homem que afinal não era Schwarz e foge do campo de concentração de Le Vernet [França] e decide resgatar a sua mulher em Osnabrück [Alemanha].

A narrativa trouxe-me à memória as visitas perturbantes aos campos de concentração de Dachau [Alemanha] e Mauthaussen [Áustria] aquando do meu percurso pelo rio Danúbio. Em Mauthaussen, tal como no campo onde é presa a mulher de Schwarz, as mulheres tinham também funções de escravas sexuais e uso e abuso do seu corpo por estranhos. O filme “O fotógrafo de Mauthaussen” é elucidativo.

Custa a crer como é possível que o ser humano atinja tão violento e degradante grau de desumanidade. Talvez não custe tanto a crer, basta começar por ver a indiferença geral, neste tempo, perante a morte de tantos milhares de imigrantes afogados no mar Mediterrâneo…

“– É bem possível que a nossa época venha a ser conhecida no futuro pelo Século da Ironia – observou Schwarz.”.

O que acontecerá ao personagem ouvinte de Schwarz e à mulher deste?

Fica a sugestão da leitura deste emocionante livro.

Vítor Franco

Um mundo infestado de demónios

Ilustração digital. Mais Ribatejo/IA Este é o título de um dos magníficos livros de Carl Sagan . Na contracapa o texto começa com a pergunta...