quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Comboios com problemas bons


A criação do passe ferroviário verde foi uma ótima medida de fomento do serviço público ferroviário.

Este passe ferroviário fez encher os comboios, diminuiu a necessidade do automóvel – espero que tenha contribuído para a diminuição de acidentes -, diminuiu a poluição rodoviária e atraiu para os comboios pessoas que normalmente não o usam nas suas viagens mais ocasionais.

A boa medida “criou” problemas bons. Ficou mais evidente a falta de comboios para as necessidades já antes verificadas, locomotivas e carruagens, a falta de mais comboios em horários mais alargados e uma cobertura mais alargada e coerente do país.

A limitação da compra só nas 24 horas antes do horário do comboio criou uma corrida em que os bilhetes desaparecem num ápice, ao que pessoas algumas pessoas contornaram comprando bilhete para uma estação anterior à sua. A primeira solução criou a instabilidade de se conseguir ou não bilhete – os lugares esgotados tornaram-se uma normalidade -, a segunda agravou ainda mais o esgotamento porque passou a haver lugares vazios de pessoas que só vão entrar em estações à frente.

Tais factos estão identificados, esperam-se medidas corretivas.

O jornal Público de hoje traz uma boa matéria sobre esta situação. A dada altura, escreve o jornalista Carlos Cipriano: “A CP continua com cerca de 20% da sua frota de carruagens do Intercidades encostada nas oficinas à espera de manutenção e de reparação. Faltam peças, que a empresa não pode comprar sem autorização da tutela financeira, e faltam operários, que não consegue recrutar ou manter, porque não está autorizada a subir os salários”. É aqui que entra o garrote do orçamento.

Uma boa medida é estrangulada se não se libertarem os meios financeiros para a concretizar e se não se romper com o dogma de que os salários em Portugal têm que ser dos mais baixos da Europa.

Conhecemos as consequências do desinvestimento nos variados serviços públicos, na saúde, na educação, na limpeza urbana… Conhecemos as consequências da demissão do Estado da construção de habitação pública a preços controlados porque se submete ao dogma de que o mercado resolve. Está à vista!

Um pouco em sentido inverso, tem ocorrido um conjunto de melhorias na política de transportes públicos em particular nos passes, por exemplo a gratuitidade para jovens, maior apoio social e novos passes nacionais ferroviários. O passe jovem abrange todos os estudantes até 23 anos, Passe Social + já existia foi alargado abrangendo agora 2,5 vezes mais pessoas, etc, [mais dados aqui].

Estão criados problemas bons, criados por melhorias; agora é preciso que o governo seja consequente com as boas medidas e deixe de lado os seus dogmas de mercado. A ver vamos!

Vítor Franco
(Também publicado no jornal online Mais Ribatejo)
Ouça aqui a crónica sonora:

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