quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Comboios com problemas bons


A criação do passe ferroviário verde foi uma ótima medida de fomento do serviço público ferroviário.

Este passe ferroviário fez encher os comboios, diminuiu a necessidade do automóvel – espero que tenha contribuído para a diminuição de acidentes -, diminuiu a poluição rodoviária e atraiu para os comboios pessoas que normalmente não o usam nas suas viagens mais ocasionais.

A boa medida “criou” problemas bons. Ficou mais evidente a falta de comboios para as necessidades já antes verificadas, locomotivas e carruagens, a falta de mais comboios em horários mais alargados e uma cobertura mais alargada e coerente do país.

A limitação da compra só nas 24 horas antes do horário do comboio criou uma corrida em que os bilhetes desaparecem num ápice, ao que pessoas algumas pessoas contornaram comprando bilhete para uma estação anterior à sua. A primeira solução criou a instabilidade de se conseguir ou não bilhete – os lugares esgotados tornaram-se uma normalidade -, a segunda agravou ainda mais o esgotamento porque passou a haver lugares vazios de pessoas que só vão entrar em estações à frente.

Tais factos estão identificados, esperam-se medidas corretivas.

O jornal Público de hoje traz uma boa matéria sobre esta situação. A dada altura, escreve o jornalista Carlos Cipriano: “A CP continua com cerca de 20% da sua frota de carruagens do Intercidades encostada nas oficinas à espera de manutenção e de reparação. Faltam peças, que a empresa não pode comprar sem autorização da tutela financeira, e faltam operários, que não consegue recrutar ou manter, porque não está autorizada a subir os salários”. É aqui que entra o garrote do orçamento.

Uma boa medida é estrangulada se não se libertarem os meios financeiros para a concretizar e se não se romper com o dogma de que os salários em Portugal têm que ser dos mais baixos da Europa.

Conhecemos as consequências do desinvestimento nos variados serviços públicos, na saúde, na educação, na limpeza urbana… Conhecemos as consequências da demissão do Estado da construção de habitação pública a preços controlados porque se submete ao dogma de que o mercado resolve. Está à vista!

Um pouco em sentido inverso, tem ocorrido um conjunto de melhorias na política de transportes públicos em particular nos passes, por exemplo a gratuitidade para jovens, maior apoio social e novos passes nacionais ferroviários. O passe jovem abrange todos os estudantes até 23 anos, Passe Social + já existia foi alargado abrangendo agora 2,5 vezes mais pessoas, etc, [mais dados aqui].

Estão criados problemas bons, criados por melhorias; agora é preciso que o governo seja consequente com as boas medidas e deixe de lado os seus dogmas de mercado. A ver vamos!

Vítor Franco
(Também publicado no jornal online Mais Ribatejo)
Ouça aqui a crónica sonora:

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O rapaz do hospital


O rapaz tinha cursado eletricidade, acabado o antigo curso complementar dedicou-se a calejar as mãos que os escudos faziam falta e o desejo de autonomia ardia no peito.

Depois de um “estágio” de servente de pedreiro ingressou como eletricista na construção do Hospital de Santarém. Quando ele fala desse tempo fá-lo com gosto. Lembra-se do grande refeitório, da grande fogueira onde se assava carne, da relação muito solidária com os colegas, de quando organizou um protesto porque a direção de obra não deixou entrar bicicletas e motorizadas, dos plenários e das greves, de uma bonita filha do encarregado que trabalhava na secretaria, de quando separou uma briga de colegas… Coisas de rapazes com “sangue na guelra” em tempos de entusiasmo popular.

O rapaz seguiu outros trabalhos, mas as obras do hospital continuaram. O Hospital Distrital de Santarém foi inaugurado em 15 de novembro de 1985. Foi um salto positivo e enorme na construção do Serviço Nacional de Saúde e dos cuidados à população.

Como em alguns filmes, a narrativa dá um salto. O Hospital já fez 40 anos! É a partir daqui que a narrativa se transfigura olhando para o estado a que este chegou

Agora o hospital está muito mais moderno e até tem página de internet, com isso ganhamos transparência. É nela que podemos ver, por exemplo, os desmesurados tempos de espera para as consultas de duas especialidades, cujo atendimento prima pela fragilidade.
Ginecologia         nº utentes  dias de espera   Obstetrícia          nº utentes dias de espera
Muito prioritário       19             31                Muito prioritário      50           18
Prioritário               132            57                 Prioritário             106            37
Normal                   214          533                 Normal                  42            44

Tais factos deveriam incentivar a comunidade a indignar-se. Nem com cerca de 50 crianças a nascerem em ambulâncias ou episódios sucessivos de aflição de mulheres grávidas?!

Em dezembro de 2022 o governo criou o chamado “Programa nascer em segurança no SNS”. Este programa foi anunciado depois de meses e meses de problemas com encerramentos de urgências. Os problemas continuaram, deixou-se de falar no programa – salvo quando vemos reportagens nas TVs, por vezes com desfecho dramático.

Mudou o governo, a situação parece estar ainda pior. Nos passados dias de 31 de dezembro e 1 de janeiro os hospitais de Santarém, Abrantes e Vila Franca de Xira tiveram as urgências de obstetrícia, ginecologia e pediatria encerrados. Toda esta faixa central do país ficou sem assistência. É deveras tristemente espantoso!

Ainda no que ao nosso hospital diz respeito, já em 3 de março de 2023 as notícias indicavam que só tínhamos 8 em 20 anestesistas necessários, 19 em 40 médicos de medicina interna necessários, 5 em 14 ortopedistas necessários…

Por falar em notícias, no dia 5 de junho de 2025 a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, ASAE, fechou a cozinha do hospital por irregularidades que se arrastavam desde 2020, tendo só reaberto depois de finalizadas as correções das irregularidades.

Toda esta degradação do Serviço Nacional de Saúde que atravessou vários governos foi propositada [acusação forte?] – ou parece. Esta degradação do SNS obrigou milhões de portugueses a recorrer a seguros privados passando a pagar duas vezes mais [no seu desconto salarial + apólice de seguro] pelos cuidados de saúde que a Constituição da República diz deverem ser tendencialmente gratuitos.

Afinal, tudo isto, veio abrir espaço de negócio para Santarém já ter dois hospitais privados, cujas empresas lucrarão com as nossas necessidades de cuidados de saúde. O novo hospital privado atrairá ainda mais pessoal de saúde para os seus quadros pagando mais e dando melhores condições. O SNS ficará ainda mais fragilizado!

Afinal, com tudo isto, parece que normalizámos o que não é normal, parece que nos anestesiámos… !

Afinal, tudo isto, nem era para falar do rapaz do hospital que mandava fulminantes para a fogueira dos assados ou da tentativa de boicote dos trabalhadores à festa do “pau de fileira”…

Vítor Franco

(Também publicado no jornal online Mais Ribatejo)
Ouça a crónica sonora aqui:

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Um mundo infestado de demónios

Ilustração digital. Mais Ribatejo/IA

Este é o título de um dos magníficos livros de Carl Sagan. Na contracapa o texto começa com a pergunta: “Estaremos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição?”

Os livros, por vezes, “caiem-me” nas mãos. O caso é que “Um mundo infestado de demónios”(1) chamou-me lá do meio da estante, lá onde Sagan “toma café” com Hubert Reeves, Stephen Hawking e outros, que fizeram da incitação ao conhecimento um contributo determinante para um futuro positivo da humanidade.

Carl Sagan veio “atrapalhar” as minhas leituras de “O enigma de Israel”, de Henrique Cymerman e “A vegetariana” de Han Kang. O livro foi publicado pela primeira vez em 1995 e em Portugal em setembro de 1997 numa edição Gradiva. Mas é fabuloso, basta olhá-lo que a nossa mente vai perguntar: o que trará sobre os tempos que correm?

Terei lido este livro há uns 23 ou 24 anos [nem sei], preciso de voltar a embrenhar-me nele, acompanhado da minha caneta de cores. Preciso de voltar a sublinhar, a comentar, aos meus pontos de exclamação e interrogação, a escrever perguntas interpelando o livro como se fosse um diálogo vivo. Recorro às minhas notas e sublinhados de então, partilho algumas convosco.

Nós seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam.” [pág.422]

Esta frase faz-vos pensar em algo? Estais de acordo que temos medo dos desconhecidos ou das pessoas diferentes? Encontrais aqui algo em que o racismo se possa apoiar hoje para manipular as mentes humanas?

E por falar em manipulação, dou, de novo, a palavra a Sagan…

Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer – mesmo coisas que sabemos erradas”. [pág. 423]

Sagan, e sua esposa, Ann Druyan, que colaborou na escrita do livro, relacionam esta problemática com a democracia e as suas ferramentas de defesa. Aliás, um problema que atravessa a Europa e Portugal em particular. Como é que a democracia se defende de quem a usa para a destruir? Como é que a democracia suscita a participação cívica para que não seja repressiva e até onde vai essa tolerância? Questões bem evidentes nos recentes episódios de ódio que são públicos.

O livro coloca um exemplo:

“Randall Terry, fundador [chefe] da Operação Resgaste, uma organização contra as clínicas de aborto disse numa reunião em 1993: Que uma onda de intolerância se abata sobre vós… Sim, odiar é bom… O nosso objetivo é uma nação cristã… Fomos chamados por Deus para conquistar este país… Não queremos pluralismo”.

É interessante verificar como estas afirmações, com mais de 30 anos, bem longe deste pequeno país “à beira-mar plantado”, são repetidas por um político que afirma ter uma missão perante Deus, uma ação cristã… Estas narrativas são comuns em vários países do mundo nos personagens que corporizam os discursos de ódio, liberalização e livre posse das armas, confronto contra os direitos das mulheres, dos imigrantes, etc.

Sagan e Ann Druyan trazem ao livro uma interessante abordagem de Thomas Jefferson, que foi o 3.º presidente dos Estados Unidos (1801–1809) e principal autor da Declaração de Independência. Apesar de ser uma figura polémica [por exemplo: defendia as liberdades, mas terá tido centenas de escravos], Thomas Jefferson é chamado ao diálogo com algumas das suas intervenções. Deixo-vos com a sua afirmação de que era “essencial que as pessoas se educassem a si mesmas e se envolvessem no processo político. Sem isso, dizia ele, os lobos vencerão”. Jefferson usava por vezes a classificação de lobos e cordeiros para diferenciar poderosos e fracos, dominantes e dominados.

Neste mundo infestado de demónios, queremos que os lobos vençam?

Vítor Franco

P.S. Sagan dedicou este livro ao seu neto Tonio, “Desejo-te um mundo sem demónios e pleno de luz”.“Um mundo infestado de demónios”, Carl Sagan, Gradiva, setembro de 1997.

Artigo também publicado no Jornal Mais Ribatejo aqui.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Tu pertences a ti / Não és de ninguém…

Convento das Capuchas em Santarém
“Quando alguém nasce
Nasce selvagem
Não é de ninguém
De ninguém”…

Esta quadra da canção “Nasce Selvagem”, do saudoso grupo Resistência, pode trazer-nos nostálgicas recordações. Pode, trago-a a esta partilha para acompanhar a lembrança de tantas crianças que nascem sem ninguém.
(Ouça aqui o podcast:)

É um lugar comum que nestas quadras festivas se recorde, ou presentei, quem não nasceu em berço de carinho ou posses. É…! Quiçá, assim se descarregam consciências pesadas de um ano desprovido de sensibilidade e humanidade.

Talvez também eu tenha caído em tal falta, quando só agora tenha decidido escrever sobre a roda do Convento das Capuchas.

Este Convento, ali na entrada do Bairro do Pereiro, lugar do meu crescimento, lugar de passagens apressadas sem perguntar: o que estará para além daquela porta? Não fazer perguntas é das coisas mais nefastas a que podemos entregar a mente. Foi preciso passarem décadas para que a indagação tenha exigido tocar à campainha. Quis saber da história da roda e do Convento.

Ali, pelos tempos idos do século XVIII, se construiu uma roda para entrega dos nascidos sem sorte de amor ou enchimento de colher. Nascidos de amores escondidos, de pobres sem eira nem beira, de trabalhadores quase escravos, das e dos que já então dividiam uma sardinha por três para uma fatia de pão de milho como os e as nossas avós. Ali se fazia a entrega anónima de quem nascia para viver “selvagem”.

Luiza Andaluz criou ali, em 1925, um novo lugar de acolhimento solidário, a que deu o nome de “Asilo Creche de Nossa Senhora dos Inocentes”. E, aos inocentes – pois que de nada são culpados – Luiza poderá ter dito “E para ti serás alguém / Nesta viagem”.

Aquele bairro, o do Pereiro, que em tempos terá sido lugar de acampamento romano, tem um lugar de paz e construção. No lugar onde cresci, ali ao pé da antiga “escola das meninas”, ali perto de onde “subtraía” nêsperas deliciosas do quintal de um vizinho, está um lugar de acolhimento mesmo que ele passe despercebido à comunidade.

Hoje continuam a nascer inocentes, crianças “sem ninguém”, vítimas de uma pobreza cultural e económica que persiste neste modelo de sociedade realmente existente. Continuam a nascer “selvagens” que não são de ninguém, a não ser da “má sorte”, apesar da boa nova de abril. Abril sussurra-nos por socorro, que o passado está a destruir o futuro, que o ódio se fez presente e expulsou a tolerância, o respeito e a solidariedade. Abril grita – mas poucos o ouvem -, na alienação que tolhe pensamentos e turva a visão! Nesta alienação, parida do ódio do “estado novo”, há palavras e actos exauridos: diálogo, sinceridade, luta, esperança…

Ali, no Bairro do Pereiro, há lugares com esperança para todos – para que todos sejamos alguém, nesta viagem!

Vítor Franco
P.S. O convento é propriedade da Fundação Luiza Andaluz.
Artigo também publico no jornal Mais Ribatejo aqui

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Do atentado terrorista na Austrália para o mundo, ódio alimenta ódio

Um salva-vidas coloca flores num memorial improvisado na praia de Bondi, em Sydney, Austrália, em 16 de dezembro de 2025. A Austrália está de luto após um ataque às celebrações do festival de Hanukkah da comunidade judaica, em 14 de dezembro, que deixou pelo menos 16 mortos, incluindo um atirador. EPA/MICK TSIKAS AUSTRÁLIA E NOVA ZELÂNDIA

Começo por enviar os meus pêsames às comunidades judaicas e repudiar este horroroso ataque terrorista antissemita.

Este ano estive numa abertura do Hanukkah em Lisboa, tal como estive no Rosh Hashaná que celebra o ano novo judaico – com todo o gosto. Também já estive na sinagoga em cerimónia para a qual fui convidado.
Também, com todo o gosto, fui padrinho de casamento [o nikah] de um jovem muçulmano, ofereci o fato ao noivo, participei com alegria na festa [a walima] e na comidinha boa que juntou comunidade e amigos. Foi com pesar que estive no funeral do pai do meu afilhado, assisti à cerimónia [Salat al-Janazah] na mesquita de Lisboa e acompanhei-o no enterro.
 
Estes parágrafos iniciais identificam uma forma de estar ecuménica que valorizo positivamente e também está sendo atacada. O fanatismo religioso está a ser usado e está a caminhar a par do crescimento dos ódios e dos extremismos. Em pleno século XXI há dirigentes e governantes políticos que afirmam falar com Deus, ser possuidores de tarefas por Ele mandatadas, negacionistas da evolução das espécies e da natureza humana e que pretendem impedir a ciência proibindo ou condicionando livros e currículos escolares, afirmando que a terra é plana. Tais fanatismos, não vem só dos países islâmicos, atingem até os EUA, nomeadamente a proibição [dita descontinuação] em alguns Estados de conteúdos sobre sexualidade, identidade de género, racismo, história afro-americana… (1)
 
O ódio e o racismo são hoje armas de manipulação das mentalidades de centenas de milhões de habitantes deste planeta finito, onde se negam alterações climáticas e até vacinas, mas que ganham eleições. Poder-se-á dizer que a manipulação das massas via redes sociais e mentiras faz lembrar a idade média? Talvez… Não sei responder, mas sem redes sociais, fez-se a matança de judeus de Lisboa, a “matança da Páscoa de 1506, em que uma multidão perseguiu e matou milhares de judeus acusados de serem a causa de uma seca, fome e peste que assolavam o país”.
 
Em nome de uma religião, odiam-se “infiéis”, criam-se fantasmas como a teoria da substituição e da colonização da Europa pelos imigrantes islâmicos – esquecendo os crimes da escravatura, do colonialismo ou a opressão dos povos africanos. Pretende-se proibir igrejas “alheias” quando, em nome da fé, se fizeram matanças em todo o planeta e se implantou uma igreja colonial. E nem é preciso recorrer às Américas ou a África – veja-se o que fizeram as tropas católicas romanas na extinção do povo cátaro no sul de França.
O facto de eu não acreditar na existência de um Deus [sou ateu] não significa que não respeite quem acredita e [acho eu] credita-me de um olhar mais aberto – também responsável - para olhar o crescimento do ódio e do racismo no mundo.

É preciso ver a vida como ela é!

A vida humana é diversa, multicolor e multicultural. Mas todas as pessoas são feitas exatamente da mesma carne, dos mesmos ossos, do mesmo sangue. O ser humano, enquanto ser, só tem garantia de sobrevivência no respeito da diversidade pois é esta que faz a sua Unidade enquanto espécie!

- Que diriam vocês se a cerimónia de Hanukkah ou a sinagoga, onde estive, fosse atacada por fanáticos de ódio e religião e me matassem? 
- Que diriam vocês se a cerimónia fúnebre do pai do meu afilhado, na mesquita, fosse atacada por fanáticos de ódio e religião e me matassem?
 
Depois do 25 de abril o “internacionalismo proletário” era muitas vezes invocado, e bem, para negar as guerras injustas, a opressão de povos pela elite dominante de outros povos, a matança entre pessoas que nada decidem e só obedecem às chefias militares e políticas. São precisos diálogos ecuménicos e para a paz entre os povos, as esquerdas têm uma especial responsabilidade nisso.

TODOS OS POVOS TÊM DIREITO À SUA IDENTIDADE, AUTODETERMINAÇÃO E DEMOCRACIA.
 
Talvez hoje se possa invocar e globalizar o internacionalismo solidário e democrático. A tarefa parece ciclópica, mas é um problema candente que exige solução!

(Artigo e podcast em Mais Ribatejo)
Vítor Franco
(1) Fontes: UOL, Veja, GnewsUSA, Aventuras na História, Revista Fórum

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Dos factos à greve geral

Foto de António Cotrim / Lusa.

Entre 2000 e 2025, as empresas do PSI 20 acumularam aproximadamente 100 mil milhões de euros em lucros líquidos, com forte participação das empresas de energia, banca, retalho e papel. Destes lucros, distribuíram 60 mil milhões aos acionistas, taxa média de distribuição (payout ratio) de 60% ao longo do período, segundo o Jornal Económico. Tudo isto apesar de covid, guerras, instabilidade política e financeira na Europa e no mundo (…) a prioridade foi remunerar acionistas!

A EDP destacou-se. Hoje a digitalização das redes e da sua operação, os telecomandos e a inovação tecnológica, as inovadoras formas de produção de energia diminuíram exponencialmente a mão de obra. A contratação de empreiteiros para tarefas permanentes, substituindo trabalhadores do quadro por precários subcontratados, vai tornando o trabalhador com direitos estáveis numa “espécie em regressão”.

Coincidência, ou talvez não, i) o atual secretário de Estado era o anterior responsável das relações laborais da EDP, ii) os argumentos deste governo na pretensão deste pacote laboral são idênticos aos usados pela EDP para tentar agora a denúncia do Acordo Coletivo de Trabalho.

Como salientou a economista Helena Garrido, o país tem um enorme “peso dos sectores de valor acrescentado muito baixo”. Este facto é estrutural há muitos anos no país, no desiderato da competitividade. Portugal especializou-se a servir à mesa, a fazer camas, a produzir frutas de elevado consumo de água e outras produções de baixo valor acrescentado.

A recuperação salarial de milhões de pessoas castigadas pela troika, pela salvação dos bancos e pela pobreza “endémica”, poderá ter influenciado os custos unitários do trabalho em processos produtivos atrasados e os resultados de pequenas empresas em setores como o calçado, têxteis, e outras empresas de setores intensivos em mão de obra… Muitos empresários têm mostrado resistência à inovação tecnológica, à inovação e à criatividade, mantendo processos de trabalho cuja produtividade depende mais do número de braços e de mais horas de trabalho do que da modernização tecnológica e inovação.

Compreende-se [digo eu] que a “produtividade portuguesa seja 80% da europeia, por trabalhador”; também quando “34% dos trabalhadores têm formação superior, para apenas 28% dos empregadores” [Helena Garrido].

O futuro faz-se com futuro!

A solução para diminuir os custos do trabalho por unidade produzida (CTUP) não passa por obrigar as pessoas a trabalhar sem receber horas extraordinárias, nem por diminuir ainda mais aquele que já é dos salários mais baixos da Europa, nem por destruir a contratação coletiva que constrói democraticamente uma relação comunitária mais justa!

A solução para uma boa economia não passa por retroceder nas relações sociais e empobrecer as pessoas, passa pela modernização, inovação, investigação e fomento dos setores económicos de mais valor acrescentado com empregos de futuro. Uma economia que mantenha os “30 mil jovens qualificados (com ensino superior concluído) que emigram por ano em busca de melhores condições de vida e salários”. Essa fuga “representa uma perda estimada de 2 mil milhões de euros por ano para a economia portuguesa” segundo a Federação Académica do Porto.

Uma vida digna não passa por tornar ainda mais instável e precária a vida das e dos trabalhadores, dificultar ainda mais a maternidade e a paternidade - quando caminhamos para um país de velhos -, e, antidemocraticamente, limitar direitos constitucionais como a liberdade sindical e o direito à greve!

Aderir e apoiar a greve geral de 11 de dezembro é um ato pela justiça e respeito das e dos trabalhadores. Por uma vida digna!

Vítor Franco

P.S. Poderá ler informação detalhada e simples no link do Sindicato das Indústrias de Energia e Águas de Portugal (SIEAP) clicando aqui.

domingo, 3 de agosto de 2025

Rota cultural pelos países bálticos com bicicleta #17 e última

Se há mensagem que ainda pode elucidar a vivência destes povos é esta que partilho neste vídeo. Ouçam e vejam. E pensem, pensem o que podem fazer pela cidadania, pelo lugar onde vivem - o vosso lugar!

Até à próxima cicloviagem.

Vítor Franco

sábado, 2 de agosto de 2025

Rota cultural pelos países bálticos com bicicleta #16



A rota chegou ao fim. Regressei a Riga em mais um excelente transporte Lux Express. Dei mais umas voltas pela cidade e tirei mais umas fotos. Voltei ao pequeno hotel que me recebeu quando cheguei e guardou a minha caixa de papelão de levar a bicicleta de avião. A dificuldade foi desmontar o pedal direito, estava muito apertado , não foi capaz. Resolvi arriscar, afinal fica do lado do desviador e até serve de proteção. No embarque da bike só me perguntaram se tinha diminuído a pressão dos pneus, safei-me. A lição fica, da próxima levo uma pequena chave francesa e quando montar os pedais limpo bem as roscar e ponho massa ou spray lubrificante.

Fui "preso" na Lituânia, comido pelas melgas nas florestas da Letónia, "mirei" donzelas esguias de olhos azuis na Estónia, aprendi arquitetura na capital finlandesa...

Foto na antiga prisão de Vilnius, simulando a foto de chegada do preso.

A Cortina de Ferro foi a ocupação soviética, mas, talvez muito mais, foi a matança de judeus, insurgentes, comunistas e democratas que o ódio nazi fez, calcula-se 200.000 mil pessoas.
Acabou a rota...
Afinal, quem fui por aqui?
Fui andarilho, por terras do Báltico...
Andarilho... Nome de canção do mestre Zeca...
José Afonso faria hoje 96 anos, obra imortal!
Vítor Franco
"Andei à giesta
Ao lírio maninho
Na Bouça da Fresta
No Casal Velido
Erva cidreira
À erva veludo
Na Lomba regueira
No Pinhal do Mudo".
Em Cantares de Andarilho
https://youtu.be/6fs5PE0TIG0?si=qKh2vIkGYUtO69yr

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Rota cultural pelos países bálticos com bicicleta #15

Porque é que as cruzes das religiões são diferentes?


A este ateu confesso, que gosta de aprender, despertou a curiosidade: porque é que as cruzes ortodoxas são diferentes das católicas?
Fiz uma pequena pesquisa na net, nas várias páginas da IA, e descobri isto que passo a citar.
"As cruzes das igrejas ortodoxas e católicas refletem diferenças profundas na teologia, na tradição e na estética de cada ramo do cristianismo.
Cruz Ortodoxa
A cruz ortodoxa geralmente tem três barras horizontais:
- Barra superior: representa a inscrição colocada por Pilatos — “INRI” (“Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”).
- Barra do meio: é a principal, onde os braços de Jesus foram pregados.
- Barra inferior inclinada: simboliza o apoio para os pés. A inclinação representa a balança da justiça — o lado elevado aponta para o bom ladrão que foi salvo, e o lado baixo para o ladrão que rejeitou Jesus.


Essa forma transmite a ideia de Cristo como juiz e redentor, e enfatiza a ressurreição e glória divina, mais do que o sofrimento físico.
As igrejas ortodoxas têm cruzes diferentes consoante o rito?
Sim, existem variações nas cruzes ortodoxas conforme o rito, a tradição regional e até o período histórico. A Igreja Ortodoxa não é monolítica — ela inclui várias jurisdições com práticas distintas, e isso se reflete também na simbologia das cruzes.
Exemplos de cruzes ortodoxas por rito ou tradição
- Cruz Ortodoxa Russa:
- Tem três barras horizontais: a superior (INRI), a central (braços) e a inferior inclinada (apoio dos pés).
- Muito usada na Igreja Ortodoxa Russa e nas igrejas que seguem o rito eslavo.
- Cruz Bizantina ou Grega:
- Frequentemente tem quatro braços iguais, formando uma cruz grega.
- Pode incluir letras como IC XC NIKA (“Jesus Cristo vence”) e é comum na tradição grega e balcânica.
- Cruz de Santo André:
- Em forma de X, associada ao apóstolo André, padroeiro da Rússia e da Escócia.


- Usada em algumas tradições eslavas e também como símbolo nacional.
- Cruz Ortodoxa Sérvia:
- Pode incluir quatro letras “C” ou “B” nos cantos, representando “Só com Cristo, Salvador” ou “Só Deus Salva”.
- Cruz Ortodoxa Etíope:
- Extremamente ornamentada, com padrões geométricos complexos.
- Reflete a estética africana e a tradição copta ortodoxa.
Influência do rito e da cultura
Cada cruz carrega não só um significado teológico, mas também identidade cultural e litúrgica. Por exemplo:
- Igrejas que seguem o rito bizantino tendem a usar cruzes mais simbólicas e decorativas.
- Igrejas do rito antigo eslavo (como os Velhos Crentes) mantêm formas mais tradicionais e simbologias específicas."
Pronntttssss, já aprendemos qualquer coisa mais :)
Vítor Franco






quinta-feira, 31 de julho de 2025

Rota cultural pelos países bálticos com bicicleta #14

A história de uma fotografia com 90 anos, a linda atitude de um desconhecido e a matança dos judeus.

A foto, com 90 anos, da avó do meu amigo.

Veio um pedido: “será que em Vilnius se consegue descobrir a casa de meus avós?”. E enviou uma foto de uma loja de ferragens pertencente à família.
Braços abertos ao pedido. A boa amizade convoca o dever de retribuir. Será que se consegue descobrir? Será que a loja M. Glazman terá resistido depois dos bombardeamentos da 2a guerra mundial? Além da loja haverá uma casa?
Só tínhamos uma fotografia, com 90 anos…
Pensou-se um plano, começar pelas aplicações de inteligência artificial, cruzar informação, (...).
As aplicações detetaram possibilidades, provavelmente era uma loja no bairro judeu, deram três ruas como prováveis. Confere, a família tinha tentado fugir à matança que a invasão alemã fez - nem sequer levaram as pessoas para os campos de concentração, foi matar rápido. Nem toda a família conseguiu salvar-se, só duas pessoas…
No translator escrevi um texto em português, com tradução para lituano. Começou a pesquisa nas ruas indicadas, primeiro pela semelhança da fachada da loja, depois pela pergunta nos logistas. E que bonito foi ver que pessoas desconhecidas se prontificavam a ajudar, não sabiam, mas telefonavam a tentar informações. Sem sucesso…
Nova rua, novos olhares indagando semelhanças nas fachadas… Sem sucesso.
Terceira rua, algo aqui parecia trazer boas novas, fim da rua, nada… A esperança é a última coisa a morrer!
Na última casa, um bonito restaurante, tinha um senhor à porta. Não custava perguntar… Tradutor, foto… O senhor vai pesquisar, pesquisa, pesquisa… Os minutos parecem carregar fardos de “ansiedade” e expectativa… Num momento diz: “eu sei onde fica”, uau, “venham comigo, vou levar-vos lá”...
Que maravilha, como descobrir uma velhinha loja de ferragens de há 90 anos?!
A fresca chuva deu ajuda ao passo rápido, esquerda, direita, em frente, para um lado, outro lado, atrás, à frente, o senhor olhava para o Google Maps e para o site que consultava…
A dado momento pára e diz, ali era a casa da família Glazman!!!

Esta entrada dá para um pátio com casas à volta. Aqui morava a família, na rua Rūdninkų g. 11 - 12.

As emoções arrepiaram a pele, o coração bateu mais forte, estávamos a viajar no tempo, a regressar ao lugar onde uma família que vivia feliz teve de fugir e viu os seus laços serem destruídos pelo ódio nazi. “A casa dos Glazman era no primeiro andar” disse o nosso guia, “porque aqui o número 12 fica por cima”...
Que família viveria agora naquela habitação? Teriam conhecimento da trágica história da casa da família que ali tinha tentado crescer com as suas crianças, da avó que a todos deixou boas recordações?
As casas ladeavam um pátio, quase ao jeito das “ilhas” do Porto. Que poderia este pátio contatar-nos hoje, das brincadeiras das crianças, dos convívios vizinhos, das festas ou actos religiosos?
A chuva miudinha continuava…
“Falta descobrir a loja” disse-nos…
“Vamos…”, retornou às pesquisas, ao site, às fotos… Voltámos ao passo rápido, esquerda, direita, em frente, para um lado, outro lado, atrás, à frente…
“Encontrei, era aqui”!
O lugar onde há 90 anos existia a loja de ferragens.

Mas a foto da loja não era igual… Pois não, as bombas nazis tinham destruído quase todo o quarteirão em nome de uma raça superior, em nome do ódio - do nós [os superiores] contra eles, os outros. Uma narrativa que hoje se reconstrói contra os imigrantes e os ciganos, nós contra eles, os bons contra os maus, sempre contra os mais fracos…
Mas, voltando…
Tirámos fotos, partilhámos com os amigos o tempo de hoje que tende a esquecer as vidas do passado…
Regressámos, contentes, ao restaurante de partida. Pedimos comida e convidámos o nosso novo amigo para jantar connosco, agradeceu e foi buscar o seu computador. E trouxe-nos mais informação, mais fotos da família, mais conforto…
Declinou o convite para jantar, “eu sou o dono” disse, e foi trabalhar.
O jantar estava sublime, delicioso, criativo, enquadrado num ambiente “Agatha Christie” excelentemente decorado.
Voltou à conversa, trocámos contatos… Falo do magnífico ser humano que é o Senhor Robertas, ele é o dono do restaurante Puaro que fica aqui: https://maps.app.goo.gl/QcJNEWKqLmgFqsfP6
Labai ačiū! Robertas!
Chove em Vilnius!
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A matança nazi dos judeus
Cito: "Os números anteriores à Segunda Guerra Mundial são impressionantes: a população judaica de Vilnius era de quase 100.000 habitantes, cerca de 45% do total da cidade. O país estava repleto de cerca de duzentas comunidades judaicas, que sustentavam a vida e o sustento de cerca de 240.000 pessoas. Vilnius tinha 105 sinagogas e casas de oração. Havia seis jornais judaicos diários. O iídiche era a língua escolhida. De facto, a cidade foi apropriadamente chamada a Jerusalém da Lituânia.
Os números do pós-guerra são assustadores: apenas 24.000 judeus sobreviveram. Ou, melhor dizendo, 90% dos judeus foram assassinados. A população judaica de Vilnius é hoje de 5.000, apenas 5% do que era antes. O país alberga apenas 6.500 judeus, cerca de 200 dos quais são sobreviventes do Holocausto. A maioria das duzentas comunidades pré-guerra foi dizimada, completamente apagada do mapa. Existe apenas um jornal judaico. Poucas pessoas falam iídiche atualmente. Hoje, resta exatamente uma sinagoga em Vilnius".
"Entre os testemunhos emocionalmente angustiantes recolhidos em livro, uma senhora idosa contou a Vanagaite: "Muitas pessoas queriam ajudar as crianças judias, mas tinham medo. Não dos alemães, mas dos seus próprios."
Foto de esconderijos de crianças dos nazis em sotão
 
Foto de esconderijos de crianças dos nazis em cave e buracos

A Lituânia albergava uma comunidade de mais de 200.000 judeus antes da Segunda Guerra Mundial. Mas os historiadores afirmam que cerca de 195.000 pereceram às mãos dos nazis e dos colaboradores locais durante a ocupação alemã de 1941-44, quase toda a população judaica.
Segundo alguns estudiosos e historiadores "o assassinato em massa dos judeus de Vilnius não poderia ter ocorrido sem a ajuda dos lituanos: os alemães não tinham homens suficientes para a tarefa. Posto isto, é importante recordar que a dupla ocupação da Lituânia, pelos soviéticos e depois pelos alemães, representou uma rutura extremamente violenta com a história anterior de Vilnius e da Lituânia. Embora os alemães não tenham tido dificuldade em encontrar lituanos dispostos a matar judeus, o que aconteceu em 1941 não tinha precedentes na política lituana pré-guerra nem na história das relações entre a Lituânia e os judeus."
Vítor Franco

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Rota cultural pelos países bálticos com bicicleta #13

 

Hoje foi dia de guiar maltinha fixe pelas ciclovias e percursos na floresta, pelo que, o percurso foi idêntico ao feito no dia 24. Foram cerca de 30km de passeio na natureza, em percurso circular, vindo, cá abaixo, ao Vingis Parka [a bateria do relógio acabou e só mostra metade do percurso], com direito a gelado [sem glúten :)], um percurso fácil e muito prazeroso com imensa gente a aproveitar e as melgas a morderem-me as pernas :).
Para as pessoas mais audazes no Caminho de Santiago ficam a saber que aqui começa o Caminho Lituano. Se tiverem as imensas possibilidades de fazer uns milhares de km e gastar uma notinha, podem começar aqui a na Igreja dos Santos Apóstolos Filipe e Tiago que foi construída em 1624 e é de inspiração barroca.

   

Vítor Franco

Comboios com problemas bons

A criação do passe ferroviário verde foi uma ótima medida de fomento do serviço público ferroviário. Este passe ferroviário fez encher os co...