| Ilustração digital. Mais Ribatejo/IA |
Este é o título de um dos magníficos livros de Carl Sagan. Na contracapa o texto começa com a pergunta: “Estaremos no limiar de uma nova era de obscurantismo e superstição?”
Os livros, por vezes, “caiem-me” nas mãos. O caso é que “Um mundo infestado de demónios”(1) chamou-me lá do meio da estante, lá onde Sagan “toma café” com Hubert Reeves, Stephen Hawking e outros, que fizeram da incitação ao conhecimento um contributo determinante para um futuro positivo da humanidade.
Carl Sagan veio “atrapalhar” as minhas leituras de “O enigma de Israel”, de Henrique Cymerman e “A vegetariana” de Han Kang. O livro foi publicado pela primeira vez em 1995 e em Portugal em setembro de 1997 numa edição Gradiva. Mas é fabuloso, basta olhá-lo que a nossa mente vai perguntar: o que trará sobre os tempos que correm?
Terei lido este livro há uns 23 ou 24 anos [nem sei], preciso de voltar a embrenhar-me nele, acompanhado da minha caneta de cores. Preciso de voltar a sublinhar, a comentar, aos meus pontos de exclamação e interrogação, a escrever perguntas interpelando o livro como se fosse um diálogo vivo. Recorro às minhas notas e sublinhados de então, partilho algumas convosco.
“Nós seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam.” [pág.422]
Esta frase faz-vos pensar em algo? Estais de acordo que temos medo dos desconhecidos ou das pessoas diferentes? Encontrais aqui algo em que o racismo se possa apoiar hoje para manipular as mentes humanas?
E por falar em manipulação, dou, de novo, a palavra a Sagan…
“Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Dêem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer – mesmo coisas que sabemos erradas”. [pág. 423]
Sagan, e sua esposa, Ann Druyan, que colaborou na escrita do livro, relacionam esta problemática com a democracia e as suas ferramentas de defesa. Aliás, um problema que atravessa a Europa e Portugal em particular. Como é que a democracia se defende de quem a usa para a destruir? Como é que a democracia suscita a participação cívica para que não seja repressiva e até onde vai essa tolerância? Questões bem evidentes nos recentes episódios de ódio que são públicos.
O livro coloca um exemplo:
“Randall Terry, fundador [chefe] da Operação Resgaste, uma organização contra as clínicas de aborto disse numa reunião em 1993: Que uma onda de intolerância se abata sobre vós… Sim, odiar é bom… O nosso objetivo é uma nação cristã… Fomos chamados por Deus para conquistar este país… Não queremos pluralismo”.
É interessante verificar como estas afirmações, com mais de 30 anos, bem longe deste pequeno país “à beira-mar plantado”, são repetidas por um político que afirma ter uma missão perante Deus, uma ação cristã… Estas narrativas são comuns em vários países do mundo nos personagens que corporizam os discursos de ódio, liberalização e livre posse das armas, confronto contra os direitos das mulheres, dos imigrantes, etc.
Sagan e Ann Druyan trazem ao livro uma interessante abordagem de Thomas Jefferson, que foi o 3.º presidente dos Estados Unidos (1801–1809) e principal autor da Declaração de Independência. Apesar de ser uma figura polémica [por exemplo: defendia as liberdades, mas terá tido centenas de escravos], Thomas Jefferson é chamado ao diálogo com algumas das suas intervenções. Deixo-vos com a sua afirmação de que era “essencial que as pessoas se educassem a si mesmas e se envolvessem no processo político. Sem isso, dizia ele, os lobos vencerão”. Jefferson usava por vezes a classificação de lobos e cordeiros para diferenciar poderosos e fracos, dominantes e dominados.
Neste mundo infestado de demónios, queremos que os lobos vençam?
Vítor Franco
P.S. Sagan dedicou este livro ao seu neto Tonio, “Desejo-te um mundo sem demónios e pleno de luz”.“Um mundo infestado de demónios”, Carl Sagan, Gradiva, setembro de 1997.
Artigo também publicado no Jornal Mais Ribatejo aqui.
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