Veio um pedido: “será que em Vilnius se consegue descobrir a casa de meus avós?”. E enviou uma foto de uma loja de ferragens pertencente à família.
Braços abertos ao pedido. A boa amizade convoca o dever de retribuir. Será que se consegue descobrir? Será que a loja M. Glazman terá resistido depois dos bombardeamentos da 2a guerra mundial? Além da loja haverá uma casa?
Só tínhamos uma fotografia, com 90 anos…
Pensou-se um plano, começar pelas aplicações de inteligência artificial, cruzar informação, (...).
As aplicações detetaram possibilidades, provavelmente era uma loja no bairro judeu, deram três ruas como prováveis. Confere, a família tinha tentado fugir à matança que a invasão alemã fez - nem sequer levaram as pessoas para os campos de concentração, foi matar rápido. Nem toda a família conseguiu salvar-se, só duas pessoas…
No translator escrevi um texto em português, com tradução para lituano. Começou a pesquisa nas ruas indicadas, primeiro pela semelhança da fachada da loja, depois pela pergunta nos logistas. E que bonito foi ver que pessoas desconhecidas se prontificavam a ajudar, não sabiam, mas telefonavam a tentar informações. Sem sucesso…
Nova rua, novos olhares indagando semelhanças nas fachadas… Sem sucesso.
Terceira rua, algo aqui parecia trazer boas novas, fim da rua, nada… A esperança é a última coisa a morrer!
Na última casa, um bonito restaurante, tinha um senhor à porta. Não custava perguntar… Tradutor, foto… O senhor vai pesquisar, pesquisa, pesquisa… Os minutos parecem carregar fardos de “ansiedade” e expectativa… Num momento diz: “eu sei onde fica”, uau, “venham comigo, vou levar-vos lá”...
Que maravilha, como descobrir uma velhinha loja de ferragens de há 90 anos?!
A fresca chuva deu ajuda ao passo rápido, esquerda, direita, em frente, para um lado, outro lado, atrás, à frente, o senhor olhava para o Google Maps e para o site que consultava…
A dado momento pára e diz, ali era a casa da família Glazman!!!
Braços abertos ao pedido. A boa amizade convoca o dever de retribuir. Será que se consegue descobrir? Será que a loja M. Glazman terá resistido depois dos bombardeamentos da 2a guerra mundial? Além da loja haverá uma casa?
Só tínhamos uma fotografia, com 90 anos…
Pensou-se um plano, começar pelas aplicações de inteligência artificial, cruzar informação, (...).
As aplicações detetaram possibilidades, provavelmente era uma loja no bairro judeu, deram três ruas como prováveis. Confere, a família tinha tentado fugir à matança que a invasão alemã fez - nem sequer levaram as pessoas para os campos de concentração, foi matar rápido. Nem toda a família conseguiu salvar-se, só duas pessoas…
No translator escrevi um texto em português, com tradução para lituano. Começou a pesquisa nas ruas indicadas, primeiro pela semelhança da fachada da loja, depois pela pergunta nos logistas. E que bonito foi ver que pessoas desconhecidas se prontificavam a ajudar, não sabiam, mas telefonavam a tentar informações. Sem sucesso…
Nova rua, novos olhares indagando semelhanças nas fachadas… Sem sucesso.
Terceira rua, algo aqui parecia trazer boas novas, fim da rua, nada… A esperança é a última coisa a morrer!
Na última casa, um bonito restaurante, tinha um senhor à porta. Não custava perguntar… Tradutor, foto… O senhor vai pesquisar, pesquisa, pesquisa… Os minutos parecem carregar fardos de “ansiedade” e expectativa… Num momento diz: “eu sei onde fica”, uau, “venham comigo, vou levar-vos lá”...
Que maravilha, como descobrir uma velhinha loja de ferragens de há 90 anos?!
A fresca chuva deu ajuda ao passo rápido, esquerda, direita, em frente, para um lado, outro lado, atrás, à frente, o senhor olhava para o Google Maps e para o site que consultava…
A dado momento pára e diz, ali era a casa da família Glazman!!!
Esta entrada dá para um pátio com casas à volta. Aqui morava a família, na rua Rūdninkų g. 11 - 12. |
As emoções arrepiaram a pele, o coração bateu mais forte, estávamos a viajar no tempo, a regressar ao lugar onde uma família que vivia feliz teve de fugir e viu os seus laços serem destruídos pelo ódio nazi. “A casa dos Glazman era no primeiro andar” disse o nosso guia, “porque aqui o número 12 fica por cima”...
Que família viveria agora naquela habitação? Teriam conhecimento da trágica história da casa da família que ali tinha tentado crescer com as suas crianças, da avó que a todos deixou boas recordações?
As casas ladeavam um pátio, quase ao jeito das “ilhas” do Porto. Que poderia este pátio contatar-nos hoje, das brincadeiras das crianças, dos convívios vizinhos, das festas ou actos religiosos?
A chuva miudinha continuava…
“Falta descobrir a loja” disse-nos…
“Vamos…”, retornou às pesquisas, ao site, às fotos… Voltámos ao passo rápido, esquerda, direita, em frente, para um lado, outro lado, atrás, à frente…
“Encontrei, era aqui”!
O lugar onde há 90 anos existia a loja de ferragens. |
Mas a foto da loja não era igual… Pois não, as bombas nazis tinham destruído quase todo o quarteirão em nome de uma raça superior, em nome do ódio - do nós [os superiores] contra eles, os outros. Uma narrativa que hoje se reconstrói contra os imigrantes e os ciganos, nós contra eles, os bons contra os maus, sempre contra os mais fracos…
Mas, voltando…
Tirámos fotos, partilhámos com os amigos o tempo de hoje que tende a esquecer as vidas do passado…
Regressámos, contentes, ao restaurante de partida. Pedimos comida e convidámos o nosso novo amigo para jantar connosco, agradeceu e foi buscar o seu computador. E trouxe-nos mais informação, mais fotos da família, mais conforto…
Declinou o convite para jantar, “eu sou o dono” disse, e foi trabalhar.
O jantar estava sublime, delicioso, criativo, enquadrado num ambiente “Agatha Christie” excelentemente decorado.
Voltou à conversa, trocámos contatos… Falo do magnífico ser humano que é o Senhor Robertas, ele é o dono do restaurante Puaro que fica aqui: https://maps.app.goo.gl/QcJNEWKqLmgFqsfP6
Labai ačiū! Robertas!
Chove em Vilnius!
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A matança nazi dos judeus
Cito: "Os números anteriores à Segunda Guerra Mundial são impressionantes: a população judaica de Vilnius era de quase 100.000 habitantes, cerca de 45% do total da cidade. O país estava repleto de cerca de duzentas comunidades judaicas, que sustentavam a vida e o sustento de cerca de 240.000 pessoas. Vilnius tinha 105 sinagogas e casas de oração. Havia seis jornais judaicos diários. O iídiche era a língua escolhida. De facto, a cidade foi apropriadamente chamada a Jerusalém da Lituânia.
Os números do pós-guerra são assustadores: apenas 24.000 judeus sobreviveram. Ou, melhor dizendo, 90% dos judeus foram assassinados. A população judaica de Vilnius é hoje de 5.000, apenas 5% do que era antes. O país alberga apenas 6.500 judeus, cerca de 200 dos quais são sobreviventes do Holocausto. A maioria das duzentas comunidades pré-guerra foi dizimada, completamente apagada do mapa. Existe apenas um jornal judaico. Poucas pessoas falam iídiche atualmente. Hoje, resta exatamente uma sinagoga em Vilnius".
"Entre os testemunhos emocionalmente angustiantes recolhidos em livro, uma senhora idosa contou a Vanagaite: "Muitas pessoas queriam ajudar as crianças judias, mas tinham medo. Não dos alemães, mas dos seus próprios."
Foto de esconderijos de crianças dos nazis em sotão |
Foto de esconderijos de crianças dos nazis em cave e buracos |
A Lituânia albergava uma comunidade de mais de 200.000 judeus antes da Segunda Guerra Mundial. Mas os historiadores afirmam que cerca de 195.000 pereceram às mãos dos nazis e dos colaboradores locais durante a ocupação alemã de 1941-44, quase toda a população judaica.
Segundo alguns estudiosos e historiadores "o assassinato em massa dos judeus de Vilnius não poderia ter ocorrido sem a ajuda dos lituanos: os alemães não tinham homens suficientes para a tarefa. Posto isto, é importante recordar que a dupla ocupação da Lituânia, pelos soviéticos e depois pelos alemães, representou uma rutura extremamente violenta com a história anterior de Vilnius e da Lituânia. Embora os alemães não tenham tido dificuldade em encontrar lituanos dispostos a matar judeus, o que aconteceu em 1941 não tinha precedentes na política lituana pré-guerra nem na história das relações entre a Lituânia e os judeus."
Vítor Franco
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