O meu segundo Caminho de Santiago foi o português, com ida de inter-cidades para o Porto, na companhia do amigo Hugo Ferreira.
Parti sem ter feito preparação física prévia, o que teve consequências à medida que o esforço se estendia no tempo. O mau tempo, em particular a chuva e o frio, acrescentaram dificuldades.
A saída do Porto é algo confusa, até porque há três Caminhos portugueses: o do litoral, o do interior e o central que é o que nós fizemos.
Na primeira etapa, 56 km, 40 km foram debaixo de chuva - muitas vezes torrencial. A chuva tornou-se omnipresente e transformou muitos trilhos em ribeiros e trilhos secos em lama. O esforço para progredir no terreno foi muito maior.
As zonas de pedra – muitos caminhos são em antigas estradas romanas ou em pedra lisa - tornaram-se muito escorregadias e a adrenalina de descer rápido teve uma evitável queda e alguns ferimentos como consequência.
Primeira sensibilização: preparação prévia. No caso do BTT, em particular, é preciso treino de subidas curtas e íngremes, antecipação de redução de mudanças, hábitos reforçados a retirar o pé quando se usam sapatos de encaixe.
"Dançar" na lama para não cair e ficar atascado nas poças até tem a sua “piada”. Mas o que é nefando é passar por trilhos onde os suinicultores largam o aromático perfume dos porcos e nós ficando pintados de negro e “perfumados” a valer.
O primeiro dia terminou em Barcelos com mais umas curiosidades: o primeiro albergue estava fechado, o segundo não tinha roupas de cama e acabámos por ir dormir num hotel. Teve o seu lado bom: as imensas energias perdidas no dia anterior foram compensadas por um pequeno-almoço bem reforçado.
O segundo dia começou com novas peripécias: primeiro a câmara de ar da minha roda traseira “pifou”, a válvula da câmara de ar suplente ficou agarrada no adaptador de bomba de ar e a segunda câmara de ar ficou também fora de serviço; como há males que vêm por bem uma pessoa chegou-se a nós e informou de uma oficina de bikes a 100m, iupiiiiiii.
Roda reparada, lá avançámos 5 km; pois (…), só 5… As pastilhas do travão traseiro da bike do Hugo “deixaram” definitivamente de existir. Mas eis, “tam tam tam tam (…)”, nova oficina de bikes, iupiiii.
Em proposta mais emocional que racional (reconheço hoje) sugeri deixarmos as setas e usarmos, a olho, um trilho tentando contornar o pico da serra e apanhar o Caminho do outro lado. Bem, fez-se noite serrada, a humidade era quase total, o gps não dava “sinal de rumo”. Caminho nada!
Mantivemos a calma e resolvemos descer a serra fosse onde fosse o trilho / estradão parar. Gelados mas calmos chegámos ao alcatrão. Esperámos um carro e pedimos ajuda. Mais 6 km e chegámos a um café que nos deu comida e dormida.
As boas notícias: paisagens lindíssimas, pessoas que nos acolheram calorosamente. Obrigado aos donos do café da “Recolha do Leite” de Cepões. 5*
Segunda sensibilização: as setas do Caminho devem, em regra, ser seguidas. Afinal nós tínhamos ficado muito perto de passar o cume e chegar à povoação mais próxima.
Também agradável é a entrada em Tui, com uma bonita catedral do séc. XII, ruelas muitos interessantes (com subidinhas “parte-pernas” e algumas descidas em escadas arriscadas para bike); depois vieram alguns trechos agradáveis na floresta, a durinha subida a Mós e à Capilla de Santiaguiño e por fim a chegada à bonita Ria de Vigo com suas ilhotas.
Terceira sensibilização: tenha prazer no seu Caminho. “Saboreie” Valença e Tui. O Caminho não é uma corrida “papa-km” é um ato cultural e social e se for o seu caso religioso também.
Algumas bandeiras independentistas galegas começaram a ver-se em janelas, várias placas escritas originalmente em castelhano mas emendadas a spray para galego...
A última etapa da “aventura” validou as agradáveis premissas já evocadas. Gostei imenso do percurso de uns 8 km junto ao rio Tomeza, ou rio dos Gafos (em gallego-português a palavra gafo significava leproso, clique aqui e leia aqui sobre o rio que foi recuperado pela ação independente aos poderes por um grupo de cidadania), passou pela bonita cidade de Pontevedra – uma cidade bem cuidada, limpa, com um bonito centro histórico.
Chegámos à Praça do Obradoiro, nome que remete para o lugar onde obravam [trabalhavam] os “canteiros” que construíram a catedral. Fim deste meu segundo Caminho à lindíssima cidade de Santiago de Compostela – património mundial.
Fotos de Hugo Ferreira e Vítor Franco.
Leia aqui mais informações sobre a cidade.
Parti sem ter feito preparação física prévia, o que teve consequências à medida que o esforço se estendia no tempo. O mau tempo, em particular a chuva e o frio, acrescentaram dificuldades.
A saída do Porto é algo confusa, até porque há três Caminhos portugueses: o do litoral, o do interior e o central que é o que nós fizemos.
Na primeira etapa, 56 km, 40 km foram debaixo de chuva - muitas vezes torrencial. A chuva tornou-se omnipresente e transformou muitos trilhos em ribeiros e trilhos secos em lama. O esforço para progredir no terreno foi muito maior.
Primeira sensibilização: preparação prévia. No caso do BTT, em particular, é preciso treino de subidas curtas e íngremes, antecipação de redução de mudanças, hábitos reforçados a retirar o pé quando se usam sapatos de encaixe.

"Dançar" na lama para não cair e ficar atascado nas poças até tem a sua “piada”. Mas o que é nefando é passar por trilhos onde os suinicultores largam o aromático perfume dos porcos e nós ficando pintados de negro e “perfumados” a valer.
Roda reparada, lá avançámos 5 km; pois (…), só 5… As pastilhas do travão traseiro da bike do Hugo “deixaram” definitivamente de existir. Mas eis, “tam tam tam tam (…)”, nova oficina de bikes, iupiiii.
O tempo ajudou e o dia estava menos desagradável. Já tarde adiantada chegámos à temida subida da Labruja. Primeiro foi uma festa empurrar a bike “calhaus acima”. Depois a festa perdeu graça, o cansaço, o frio e a água no trilho começaram a ditar novas condições.
Mantivemos a calma e resolvemos descer a serra fosse onde fosse o trilho / estradão parar. Gelados mas calmos chegámos ao alcatrão. Esperámos um carro e pedimos ajuda. Mais 6 km e chegámos a um café que nos deu comida e dormida.
Segunda sensibilização: as setas do Caminho devem, em regra, ser seguidas. Afinal nós tínhamos ficado muito perto de passar o cume e chegar à povoação mais próxima.
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| foto do site da Câmara Municipal de Valença |
A terceira etapa uniu Cepões à galega Cesantes. Muito agradável a entrada em Valença do Minho, entrar na estratégica fortaleza pela Porta da Coroada, percorrer o seu interior e sair por um túnel abobadado na Porta da Gaviarra (clique aqui e leia mais sobre Valença) é muito interessante.
Terceira sensibilização: tenha prazer no seu Caminho. “Saboreie” Valença e Tui. O Caminho não é uma corrida “papa-km” é um ato cultural e social e se for o seu caso religioso também.
Algumas bandeiras independentistas galegas começaram a ver-se em janelas, várias placas escritas originalmente em castelhano mas emendadas a spray para galego...
A última etapa da “aventura” validou as agradáveis premissas já evocadas. Gostei imenso do percurso de uns 8 km junto ao rio Tomeza, ou rio dos Gafos (em gallego-português a palavra gafo significava leproso, clique aqui e leia aqui sobre o rio que foi recuperado pela ação independente aos poderes por um grupo de cidadania), passou pela bonita cidade de Pontevedra – uma cidade bem cuidada, limpa, com um bonito centro histórico.
O Caminho intercalava trilhos, estradões e ruelas de pequenas e bonitas aldeias com cruzamentos da movimentada N-550 na qual fizemos (a meu pedido devido ao cansaço) os últimos 11 kms.
Leia aqui mais informações sobre a cidade.
Livro
sobre o Caminho Português em pdf, do site www.amigosdelcamino.com ou http://www.vialusitana.org/caminho-portugues/guias/
Quarta sensibilização: faça-se cidadão ou cidadã ativa, defenda a natureza!




Muito bem. Parabéns pela volta e pelo relato. Abraço
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