1. A França sofre os maiores e mais graves incêndios de
sempre. Os números são dramáticos: mais de “42 000 hectares ardidos, só
no principal incêndio, centenas de casas destruídas, 250 000 pessoas evacuadas
no conjunto das áreas afetadas”. O fogo criou grandes colunas de fumo e
calor “capazes de produzir ventos, relâmpagos e novos focos — o chamado
fenómeno de tempestade de fogo ou pyrocumulonimbus”. (apnews. com)
2. A Espanha sofre também os maiores incêndios.
Espanha vive “uma das piores épocas de incêndios em décadas”, com muitos fogos
simultâneos. Tem mais de “75.000 pessoas evacuadas, 30.000 confinadas, uma
área ardida entre 130.000 e 168.000 hectares só desde janeiro, mais de 77.000
hectares ardidos e pelo menos 14 vítimas só este mês”. (france24.com)
3. Itália, Grécia e Portugal, parecem estar um pouco menos
castigados até agora. No entanto, em “2024 e 2025, Portugal, Grécia e Itália
sofreram épocas de incêndios extremamente severas, com áreas ardidas
muito acima da média histórica, impulsionadas por ondas de calor mais longas,
secas persistentes e temporadas de fogo cada vez mais extensas”.
(intellinews.com/europe)
4. A mortalidade teve recordes, neste mês de junho, devido
às canículas que crescem na duração e na intensidade. “Pelo menos 12.000
mortes em excesso durante a canícula de junho de 2026 em nove países europeus. A
maioria das vítimas (mais de 9.000) tinha 65 anos ou mais”. (Euronews.com)
5. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, “os
glaciares perderam, em média, cerca de 273 mil milhões de toneladas de gelo por
ano entre 2000 e 2023. Entre 2022 e 2024 ocorreu a maior perda de massa glaciar
acumulada em três anos desde o início dos registos”. (wmo.int/news/media-centre).
Todas as organizações científicas confirmam a subida da temperatura do
planeta. Se dúvidas ainda houvessem, aqui fica este gráfico da NASA. Ela “afirma
que existem provas inequívocas de que a Terra está a aquecer a um ritmo
excecional e que a atividade humana é a causa principal”. (science.nasa.gov/earth/explore/earth-indicators/).
Se os glaciares derretem mais, o mar sobe mais. Se a temperatura do mar sobe,
piores vão ser os fenómenos como o El Niño e outros.
6. Doenças anteriormente associadas sobretudo a climas tropicais ou subtropicais estão a crescer na Europa, algumas até em Portugal. Os dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde são claros: Dengue, Chikungunya, Febre do Nilo Ocidental, Leishmaniose, Zica (…) são trazidos por insetos que antes não conseguiam viver nestes climas, nomeadamente mosquitos. “Portugal, Espanha, Itália, França e Grécia são os países mais vulneráveis”. (who.int/europe)
7. O problema acresce, a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação e a FAO são claras nos seus relatórios: “as terras inférteis no planeta estão a aumentar, e a tendência está a acelerar devido ao aquecimento global, à perda de água, à erosão, à desertificação e ao uso agrícola intensivo”. “40% das terras do planeta estão degradadas ou em processo de desertificação, 1/3 das terras agrícolas já perdeu fertilidade significativa, 24 bilhões de toneladas de solo fértil são perdidas todos os anos, 75% da superfície terrestre já sofreu algum nível de degradação”. Cerca de 120.000 hectares de terra ficam inférteis todos os anos. (unccd.int/resources/global). “Portugal tem 58% do território vulnerável e o Alentejo é a área mais crítica, 20% já em estado de degradação severa, 9% da costa em erosão crítica afetando também solos agrícolas”. Os dados públicos da Pordata, ICNF e da [dormente] APA são claros. (pordata.pt, icnf.pt, apambiente.pt)
Isto não é a história do Pedro e do lobo. São dados e
factos!
Dados e factos não são crenças de que sempre houve verões
quentes, doenças tropicais, inundações… Não, os dados e factos demonstram as
consequências de se manterem os predomínios dos combustíveis fósseis, sistemas
produtivos altamente poluentes, transportes públicos deficientes e caros…
O caso é mais sério ainda!
Vivencia-se uma onda de negacionismo dos factos e dados
científicos, um extremismo que ganha força eleitoral em todo o mundo, na senda
de Donald Trump. Neste tempo de
incerteza, guerra, conflito, ódio, esperava-se uma Europa pacificadora,
sensata, lucida, referência de inovação tecnológica, proteção ambiental,
qualidade de vida e combate sério e efetivo às alterações climáticas. Nada
disso.
O Finantial Times trouxe-me a má novidade. A UE dará à indústria
mais tempo para poluir e mais fundos aos grandes poluidores [tradução minha].
(ft.com/)
A pesquisa levou-me a dois artigos no semanário digital
vientosur.info/. Tentando resumir: As licenças de emissões de carbono, “atualmente
avaliadas entre 35 e 40 bilhões de euros anualmente, expirariam em 2034. Elas
serão prorrogadas até 2038 para empresas que se comprometam a investir na
Europa. Nesse caso, elas poderão compensar até 80% de suas emissões sem gastar
um único euro”. A Comissão pretende que pelo menos metade dos 24 mil
milhões de euros que as empresas pagam aos Estados pelas licenças, seja agora “atribuído
às empresas para financiar a descarbonização (em comparação com os atuais 5%).
Por outras palavras, o dinheiro que atualmente beneficia a comunidade será
desviado para beneficiar os poluidores que, conscientemente, prejudicam o
clima, em detrimento da sociedade”.
O Plano Verde da Europa está a “ir pelo cano”. L'accord de Paris est en train de brûler!
E quando a
Europa devia investir numa forte força de proteção civil europeia, investe em
armamento!
Vítor Franco
Também publicado no jornal Mais Ribatejo